História do Espiritismo no Brasil

O pioneirismo na Bahia

Afirma-se que a história do espiritismo no Brasil remonta ao ano de 1845, quando, no então distrito de Mata de São João, na Província da Bahia, teriam sido registadas as primeiras manifestações. 

De acordo com Divaldo Pereira Franco, o ano teria sido 1849, tendo se caracterizado por um confronto entre elementos da Igreja Católica e espíritas, com a interveniência de força policial.

Posteriormente, o Jornal do Commercio, tradicional periódico da então capital brasileira, em artigo publicado em 23 de setembro de 1863 na seção "Crónicas de Paris", abordou os espetáculos acerca dos espíritos então populares nos teatros de Paris e, em seguida, passava a tecer comentários em torno do Espiritismo. Esse artigo é citado pela La Revue Spirite, onde Allan Kardec comenta que o autor do artigo não se aprofundou no estudo do Espiritismo, de cuja parte teórica ignorava os processos.

Elogia-lhe, porém, o comportamento sensato diante dos fatos, para a explicação dos quais não levantara teorias temerárias. "Pelo menos" - referiu Kardec - "ele não julga pelo que não sabe." E complementa:

"Verificamos, com satisfação que a idéia espírita faz progressos sensíveis no Rio de Janeiro, onde ela conta com numerosos representantes, fervorosos e devotados. A pequena brochura "Le Spiritisme à sa plus simple expression", publicada em língua portuguesa, contribuiu, não pouco, para ali espalhar os verdadeiros princípios da Doutrina."

 Ainda nas páginas da Revue sob o título "O Espiritismo no Brasil", Kardec informou aos seus leitores que o periódico "Diário da Bahia" em suas edições de 26 e 27 de setembro de 1865, trouxera dois artigos, tradução em língua portuguesa dos que haviam sido publicados, seis anos antes, pelo Dr. Amédée Dechambre (1812-1886), coordenador de publicação do "Dictionnaire encyclopédique des sciences médicales".

 Nesses artigos, aquele médico fizera uma exposição semiburlesca do assunto, referindo, por exemplo, que o fenômeno das mesas girantes e falantes já havia sido referido pelo poeta grego Teócrito (300-250 a.C.), pelo que concluía que, não sendo novo esse fenômeno, não tinha nenhum fundo de realidade.

"Lamentamos que a erudição do Sr. Déchambre" - comentou Kardec -, "não lhe tenha permitido ir mais longe, porque teria encontrado o fenômeno no antigo Egito e nas Índias." (Op. cit., p. 334-335). Os próprios espíritas da Bahia refutaram imediatamente esses artigos no próprio "Diário da Bahia", na edição de 28 de setembro. A carta que antecedeu a refutação, dirigida à redação da folha bahiana e assinada por Luiz Olímpio Teles de Menezes, José Álvarez do Amaral e Joaquim Carneiro de Campos, leva a supor que o referido jornal só publicara o trabalho do Dr. Déchambre por julgar houvesse nele uma apreciação exata da Doutrina Espírita.

A refutação consistiu num extenso extrato da introdução de "O Livro dos Espíritos", o que levou Kardec a afirmar: "As citações textuais das obras espíritas são, com efeito, a melhor refutação às desfigurações que certos críticos fazem sofrer a Doutrina." (Op. cit., p. 336. Apud Zêus Vantuil e Francisco Thiesen. Allan Kardec - Pesquisa Bibliográfica e Ensaios de Interpretação. Rio de Janeiro: FEB.)

Este episódio é coevo da fundação, naquele mesmo ano (1865), em Salvador, do Grupo Familiar do Espiritismo por Teles de Menezes.

No ano seguinte (1866), na cidade de São Paulo, a Tipografia Literária publicou "O Espiritismo reduzido à sua mais simples expressão", de Kardec, sem indicação de tradutor.

Em julho de 1869, em Salvador, iniciou-se a publicação da revista O Echo d'Álem-Túmulo, sob a direção de Teles de Menezes.

O desenvolvimento no Rio de Janeiro

 O período Imperial

Na cidade do Rio de Janeiro, então capital do Império do Brasil, o primeiro periódico publicar trechos traduzidos das obras de Allan Kardec foi o "A Verdadeira Medicina Física e Espiritual associada a Cirurgia: jornal cientifico sobre as ciências ocultas e especialmente de propaganda magnetotherapia", publicado de janeiro a abril de 1861 pelo Dr. Eduardo Monteggia, não por que se considerasse espírita, mas sim um democrata.

 Nesta capital, a primeira instituição espírita a ser fundada foi a Sociedade de Estudos Espiríticos - Grupo Confúcio, em 1873. Conforme previsto em seus estatutos, devia seguir os princípios e as formalidades expostos em O Livro dos Espíritos e em O Livro dos Médiuns, de Allan Kardec. As suas atividades incluíam ainda o receituário gratuito de homeopatia e a aplicação de passes  



aos necessitados.
A sua maior virtude, entretanto, foi a de promover a tradução das obras básicas de Kardec para a língua portuguesa. A reação na imprensa da época expressa-se, por exemplo, num comentário veiculado nas páginas do Jornal do Commercio, acusando o Espiritismo de fabricar "loucos" e pedindo a interferência da polícia, concluindo: "É uma epidemia mais perigosa que a febre amarela..." (Jornal do Commercio, 13 de dezembro de 1874).

Em 1875, o Grupo Confúcio lançou o segundo periódico espírita do país (primeiro no Rio de Janeiro), a Revista Espírita, dirigida por Antônio da Silva Neto.

A este grupo estiveram ligados nomes expressivos como o de Joaquim Carlos Travassos que, ainda em 1875 apresentou a primeira tradução de "O Livro dos Espíritos" para a língua portuguesa a Bezerra de Menezes.

O Grupo extinguiu-se em 1876, dando lugar à Sociedade de Estudos Espíritas Deus, Cristo e Caridade, sob a direção de Francisco Leite de Bittencourt Sampaio. No seu programa doutrinário, em que a obra codificada por Allan Kardec era parte essencial, compreendia-se o estudo da obra Os Quatro Evangelhos, de Jean-Baptiste Roustaing.

Divergências ideológicas entre os que preconizavam um espiritismo "científico" e outros que sustentavam um espiritismo "místico", entretanto, conduzirão a dissidências da Sociedade de Estudos. Inicialmente, em 1877 um grupo se separou para constituir a Congregação Espírita Anjo Ismael (20 de maio).

No ano seguinte (1878), outro grupo constituiu o Grupo Espírita Caridade (8 de junho). Ambos tiveram efêmera duração, estando desaparecidos já em 1879. Nesse mesmo ano, a Sociedade de Estudos deu lugar à Sociedade Acadêmica Deus, Cristo e Caridade (3 de outubro de 1879), atendendo à orientação do grupo "cientificista", contrário ao caráter religioso da Doutrina.

Em consequência, um último grupo, sob a liderança do médium João Gonçalves do Nascimento, de acordo com a tradição sob a inspiração do próprio espírito Ismael, constituiu uma nova agremiação que se denominou Grupo Espírita Fraternidade (1880).

Ainda nesse contexto, Antônio Luís Sayão que debalde tentara conciliar a "Sociedade Acadêmica Deus, Cristo e Caridade" com o "Grupo Espírita Fraternidade", fundou, com Frederico Pereira Júnior, João Gonçalves do Nascimento, Francisco Leite de Bittencourt Sampaio e outros, o chamado "Grupo dos Humildes", popularmente conhecido como "Grupo do Sayão" (15 de julho de 1880). Este grupo, numa primeira fase, que durou cerca de um ano, realizou proveitosas reuniões. Mais tarde o grupo veio a chamar-se "Grupo Ismael", vindo a integrar-se na Federação Espírita Brasileira, onde existe até aos nossos dias.

Também em 1880, Augusto Elias da Silva, futuro fundador do Reformador e da Federação Espírita Brasileira (FEB), funda a União dos Espíritas do Brasil, a que preside.

Sobre esse conturbado momento, referiu o pesquisador Pedro Richard:

"Por essa época ocorreu um fato bem significativo: Os espíritas, ou por discordância de idéias, ou por criminosa pretensão, criaram considerável número de grupos, cujos membros, em sua maioria, desconheciam os preceitos mais rudimentares da Doutrina. Qualquer espírita formava um grupo, só para satisfazer a vaidade de dar-lhe por título um nome que ele venerava. De grupos produtivos apenas se contavam alguns, em número por demais reduzido."

No ano seguinte (1881), como um desdobramento do "Grupo Fraternidade" foi fundado o Grupo Espírita Humildade e Fraternidade, com apoio de Francisco Raimundo Ewerton Quadros, que viria a ser, anos mais tarde, um dos fundadores da FEB e seu primeiro presidente (7 de junho).

O ano foi marcado, entretanto, pelo início da perseguição oficial ao Espiritismo (28 de agosto). Os periódicos cariocas O Cruzeiro e Jornal do Commercio, anunciaram em suas páginas, em furo de reportagem, a ordem policial que proibiu o funcionamento da "Sociedade Acadêmica Deus, Cristo e Caridade" e dos centros que lhe eram filiados, tornando passíveis de sanções penais os espíritas que contrariassem as disposições policiais.

Nesse mesmo dia, a Sociedade reuniu-se em sessão extraordinária, a fim de tomar providências defensivas, caso a referida noticia fosse confirmada. Ainda nesse mesmo dia, a Diretoria da Sociedade Acadêmica compareceu perante o Ministro da Justiça, que a recebeu com muita cordialidade, declarando que deveria ter havido algum equivoco, e que não consentiria na perseguição de ninguém.

Entretanto, no dia 30 de agosto, um Oficial de Justiça apresentou à Sociedade Acadêmica a contra-fé do mandado de intimação do 2º Delegado de Polícia do Município da Corte, mandado que suspendia e vedava as reuniões da dita Sociedade, alegando que ela não se achava legalmente constituída.

De imediato, a Diretoria da Sociedade Acadêmica expediu ofícios ao Chefe de Polícia e ao Ministro da Justiça, Conselheiro Manuel Pinto de Souza Dantas, demonstrando a arbitrariedade daquela medida. Uma comissão, da qual faziam parte o Dr. Antônio Pinheiro Guedes, Carlos Joaquim de Lima e Cirne e o Dr. Joaquim Carlos Travassos, entrou em contato com o Chefe de Policia, que, apesar de a ter recebido com amabilidade, nada resolveu, dando a entender que a ordem vinha de autoridade superior.

É nesse contexto que, no dia 6 de setembro de 1881, teve lugar o primeiro Congresso Espírita no Brasil, promovido pela Sociedade Acadêmica.

No mesmo dia, uma comissão de espíritas foi recebida pelo Imperador Pedro II do Brasil, a quem entregou em mãos um documento com minuciosa exposição dos fatos e o pedido de que se fizesse justiça.

O Imperador, na ocasião também terá afirmado: "Eu não consinto em perseguição". Duas semanas depois, a 21, a mesma comissão retornou ao palácio a fim de conhecer da resposta às considerações emitidas na exposição que fora entregue ao Imperador. Este afirmou que enviara os papéis ao Ministro do Império para dar solução ao caso, e tornou a afirmar, com certo ar de graça: "Ninguém os perseguirá. Mas...não queiram agora ser mártires."

Embora a ordem policial jamais tenha oficialmente revogada, também não teve prosseguimento. Finalmente, em Ofício de 10 de janeiro de 1882, dirigido a S.M. D. Pedro de Alcântara, Imperador do Brasil, a Diretoria da Sociedade Acadêmica manifestou o seu jubilo "pelo começo da tolerância" em relação àquela Sociedade, "sinal evidente de que estão terminadas as perseguições encetadas contra o Espiritismo e os espíritas".

Essa primeira ação policial contra o Espiritismo, teve como fruto a fundação, no Rio de Janeiro, em setembro ou outubro de 1881, do Grupo Espírita Vinte e Oito de Agosto, data que os espíritas da época quiseram fixar para a posteridade.

Em consequência do Congresso Espírita, veio a ser fundado, a 3 de outubro do mesmo ano, na "Sociedade Acadêmica", o Centro da União Espírita do Brasil, pelo Prof. Afonso Angeli Torteroli. A novel instituição tinha a proposta de congregar e orientar as sociedades espíritas a nível nacional.

Entre os seus associados contava-se o nome de Lima e Cirne. Esta Sociedade lançou, em Janeiro de 1881 uma revista, o segundo periódico espírita no Rio de Janeiro, tendo nele colaborado o Major Ewerton Castro.

Para marcar o primeiro aniversário da notícia sobre a repressão aos espíritas, foi aberta, a 28 de agosto de 1882, a I Exposição Espírita do Brasil, na sede da Sociedade Acadêmica, à Rua da Alfândega nº 120 sobrado. O programa comemorativo, organizado pela própria Sociedade, intitulava-se "Festa do Espiritismo no Brasil" e estendeu-se até 3 de setembro.

Os seus visitantes tiveram a oportunidade de apreciar variados trabalhos mediúnicos, como psicografias em caracteres normais, taquigráficos e telegráficos, em línguas estrangeiras (até orientais), psicopictografias, cópias da correspondência da Sociedade Acadêmica com associações espíritas estrangeiras, jornais e revistas espíritas da Europa e da América, obras espíritas diversas, retratos de vultos do Espiritismo de vários países e, também livros e jornais contrários à Doutrina. Na ocasião foi lançado ainda o jornal "O Renovador", pelo Major Salustiano José Monteiro de Barros e pelo Prof. Afonso Angeli Torteroli. Poucos meses depois, surgiria o "Reformador", sob a direção de Augusto Elias da Silva (21 de janeiro de 1883).

Para a ideia da publicação deste último pesou a Carta Pastoral combatendo o espiritismo, publicada em 1882 pelo bispo do Rio de Janeiro, que motivou respostas por parte do médico Antônio Pinheiro Guedes.

Será Elias da Silva quem promoverá, ao final desse ano (27 de dezembro de 1883)[6], em sua própria residência, a reunião preparatória de rearticulação do movimento no Município da Corte, dada a manifesta incompreensão entre os componentes das diversas entidades espíritas então aí existentes: o "Centro da União Espírita do Brasil", o "Grupo dos Humildes", o "Grupo Espírita Fraternidade" e a "Sociedade Acadêmica Deus, Cristo e Caridade".

Como fruto desse entendimento, será fundada, a 1 de janeiro de 1884, a Federação Espírita Brasileira, considerada como a "Casa de Ismael", com o objetivo de federar todos os grupos através de "um programa equilibrado ou misto" e que difundisse por todos os meios o Espiritismo, principalmente pela imprensa e pelo livro.

A 17 de agosto de 1885, em uma sala na rua da Alfândega, a FEB inaugurou o ciclo de conferências públicas que se destacará, tendo entre os seus oradores os nomes de Elias da Silva, Bittencourt Sampaio e outros pioneiros do Espiritismo no país.

O aumento do afluxo de público fará com que essas palestras se transfiram para o Salão da Guarda Velha (na rua de igual nome, atual Av. 13 de Maio) onde, a 16 de agosto de 1886, o Dr. Adolfo Bezerra de Menezes proclamará publicamente as suas convicções espíritas diante de mais de mil pessoas (1.500 ou duas mil, conforme as fontes).

Elias da Silva funda, em 1887 o Grupo Espírita Sete de Março, que se manterá em atividade até 1890.

Nos agitados dias que se estenderão da Abolição da Escravatura no Brasil (1888) até à proclamação da República (1889), destacam-se:

* a série de artigos sobre a Doutrina Espírita publicada em O Paiz, periódico de maior circulação da época.[nb 1] Com o nome de "Estudos Filosóficos - Espiritismo", os artigos saíram regularmente aos domingos, no período de 23 de Outubro de 1887 a Dezembro de 1893, assinados sob o pseudónimo "Max".

* a mensagem do espírito de Allan Kardec no "Grupo Espírita Fraternidade", conclamando os espíritas à harmonia (1888); e

* a decisão de Bezerra de Menezes - que por meio de artigos e conselhos pregava a necessidade de maior compreensão entre os espíritas - depois de muito instado, assumir a direção da FEB, sucedendo a Ewerton Quadros, que a administrara de 1884 a 1888, e que, como militar, fora transferido para a então Província de Goiás.

* a visita do médium de efeitos físicos estadunidense Henry Slade ao Brasil.[10]

É neste momento que se reorganiza e instala nas dependências da FEB o Centro da União Espírita do Brasil em sua segunda fase, com Bezerra de Menezes como presidente e, depois, Elias da Silva (1893). Foi ainda Bezerra de Menezes quem incorporou à FEB o "Grupo dos Humildes", depois denominado "Grupo Ismael". Após a proclamação da República, o Grupo Espírita Fraternidade incorporar-se-à, por sua vez também, à FEB.

Fora do Município da Corte, destacou-se neste período a fundação, no Recife, do jornal espírita "A Cruz", por Júlio César Leal (6 de julho de 1881), primeiro periódico espírita da capital pernambucana.

Período Republicano

Com a Proclamação da República do Brasil (15 de novembro de 1889), a 22 de dezembro a FEB congratula-se com o Governo Provisório pelo advento do novo regime.

Entretanto, estando o país ainda sem uma Constituição, o Decreto nº 847, de 11 de outubro de 1890, promulgou o Código Penal da República. Este diploma, de inspiração positivista, associava a prática do Espiritismo a rituais de magia e adivinhação, conforme expresso em seu Artigo 157, que rezava:

"É crime praticar o Espiritismo, a magia e seus sortilégios, usar de talismãs e cartomancia (...), inculcar curas de moléstias (...) e subjulgar a credulidade pública. Pena: prisão celular de 1 a 6 meses e multa de 100 a 500 $."

Os espíritas protestaram junto a Campos Sales, então Ministro da Justiça, sem sucesso. O relator do Código, João Batista Pinheiro, limitou-se a afirmar que o texto referia-se à prática do chamado "baixo Espiritismo". Em 22 de dezembro de 1890, Bezerra de Menezes, enquanto presidente do "Centro da União Espírita do Brasil", oficiou ao Presidente da República, Marechal Deodoro da Fonseca, acerca do novo Código Penal.

Preocupado com possíveis focos de resistência ao regime, o Governo autorizou a polícia a invadir reuniões e residências à procura de opositores. Como consequência, em 1891, na cidade do Rio de Janeiro, vários espíritas chegaram a ser detidos. Perseguidos e proibidos de se reunirem, os poucos centros espíritas então existentes viram-se na contingência de fecharem as suas portas, a fim de que não incorressem nas penas da Lei.

A própria FEB foi obrigada a suspender a publicação de sua revista, o "Reformador" neste momento. Será nesse contexto, entretanto, que Bezerra de Menezes funda o Grupo Espírita Regeneração (18 de fevereiro de 1891), a "Casa dos Benefícios".

Em 1893, no auge da segunda Revolta da Armada, o Governo endureceu ainda mais o regime. Os espíritas apresentaram um novo protesto ao Congresso Nacional contra o Código Penal, uma vez mais em vão, de vez que a comissão revisora do Código não atendeu às reivindicações formuladas por aqueles. Vitimado por dificuldades externas e internas, o Reformador deixou de circular no último trimestre daquele ano.

O "Grupo Espírita Fraternidade", após ter alterado os seus estatutos passando a denominar-se "Sociedade Psicológica Fraternidade", Revolta da Armada, extinguiu-se, e, no Natal desse mesmo ano, Bezerra de Menezes encerrou a série "Estudos Filosóficos" que vinha publicando no O Paiz.

No ano seguinte (1894), com o abrandamento da situação política, Augusto Elias, em conjunto com Fernandes Figueira e Alfredo Pereira, inicia uma campanha financeira para subsidiar os projetos da FEB. O Reformador voltou a circular.

Os historiadores do movimento registam que, à época, vivia-se uma cisão ideológico-doutrinária entre os chamados "laicos" ou "científicos", representados pelo Prof. Angeli Torteroli, que defendiam o aspecto científico do espiritismo; e os "místicos", pelo Dr. Bezerra de Menezes, que defendiam o aspecto religioso.

Desse modo, em 4 de abril de 1894 o "Centro da União Espírita" muda o seu nome para Centro da União Espírita de Propaganda do Brasil, sob a direção do Prof. Angeli Torteroli, com sede à Rua Silva Jardim nº 9. À sua Diretoria pertenciam nomes como os de Júlio César Leal[nb 4] e Bezerra de Menezes, que dela se retirou em 1896, diante da campanha de insultos pessoais que contra ele se desencadeara, por ser considerado um místico, que não se dava ao trabalho de raciocinar.[nb 5].

Diante da renúncia de Júlio César Leal à presidência da FEB, após sete meses no cargo, devido à profunda crise administrativo-financeira e ideológica vivida pela instituição, Bezerra de Menezes, a 3 de agosto de 1895, aceita assumir mais uma vez o cargo. No exercício de suas funções, imprimiu orientação evangélica aos trabalhos da instituição, permaneceu no cargo até vir a falecer, em 1900.

Nesse interím, em 28 de agosto de 1897 o "Centro da União Espírita de Propagada do Brasil" reúne-se em "Congresso Espírita Permanente", homenageando a "Sociedade Acadêmica Deus, Cristo e Caridade", objeto de tentativa de perseguição aos espíritas em 1881. Todavia, o "Centro" desaparece no mesmo período do Congresso.

Em 15 de abril de 1905 a sede da FEB, então à rua do Rosário 97, no centro histórico da cidade, foi visitada por funcionários da Diretoria Geral de Saúde Pública, que lavraram autos de infração contra o médium Dr. Domingos de Barros Lima Filgueiras, por exercício ilegal da Medicina. No processo, aberto contra o então presidente da FEB - Leopoldo Cirne - e o médium Domingos Filgueiras, ambos foram absolvidos.

A nova sede da FEB, na Rua do Sacramento (atual Avenida Passos), foi inaugurada a 10 de dezembro de 1911. Nesse mesmo ano (1911) fora fundado, na cidade do Rio de Janeiro, o jornal espírita Aurora, por Ignácio Bittencourt.

O papel centralizador da FEB a nível nacional foi questionado, na década de 1920, com a fundação da Liga Espírita do Brasil por Aurino Barbosa Souto (31 de março de 1926), que também tinha a mesma proposta. Como reação, reuniu-se no mesmo ano, pela primeira vez, o Conselho Federativo da FEB.

Fora do Distrito Federal, destacam-se, neste período:

* Em São Paulo, António Gonçalves da Silva (Batuíra) funda o Grupo Espírita Verdade e Luz, e um periódico com o mesmo nome, composto e impresso em tipografia própria (1890);

* No Recife, a fundação da Federação Espírita Pernambucana (8 de dezembro de 1904);

* Em Minas Gerais, a fundação da União Espírita Mineira, tendo Antônio Lima como seu primeiro presidente, o início da atuação, na região do Triângulo Mineiro, de Eurípedes Barsanulfo (1904), e o início da militância espírita de Cairbar Schutel, que funda um centro espírita e dá início à publicação de "O Clarim" (1905), periódico que continua a ser publicado até aos nossos dias;

* Em São Paulo, a fundação da União Espírita de São Paulo (1908) e, posteriormente, à época da Primeira Guerra Mundial, os fenómenos mediúnicos de Carmine Mirabelli;

* Em Salvador, na Bahia, a fundação da Federação Espírita do Estado da Bahia (25 de dezembro de 1915);

* Em Matão, em São Paulo, o lançamento da Revista Internacional de Espiritismo, sob a direção de Cairbar Schutel (1925).

* Em Goiás, a fundação de um centro espírita na Fazenda Palmella (1929), origem do município de Palmelo, conhecido hoje como "Cidade Espírita".

Remontam ainda à primeira década do século XX as primeiras grandes dissidências no movimento espírita, a primeira em Niterói, com o estabelecimento da Umbanda, segundo a tradição por iniciativa do Caboclo das Sete Encruzilhadas (1908), e a segunda, em Santos (1910), que se intitulou "Espiritismo Racional e Científico Cristão", sistematizada por Luís de Matos e Luís Alves Tomás.

Do Estado Novo ao Pacto Áureo

A década de 1930 foi marcada pelo lançamento, em 1931, no Rio de Janeiro, da obra "Espiritismo e Loucura", do Dr. Antônio Xavier de Oliveira, que ataca o espiritismo, afirmando por exemplo, acerca de "O Livro dos Médiuns":

"É a cocaína dos debilitados nervosos que se dão à pratica do espiritismo. E com um agravante a mais: é barato, está no alcance de todos, e por isso mesmo, leva mais gente, muito mais aos hospícios, do que a 'poeira do diabo', a 'coca maravilhosa'... É o tóxico com que se envenenam, todos os dias, os débeis mentais, futuros hóspedes dos asilos de insanos. Lêem-no, assimilam-no, incluem a essência diabólica de que é composto, caldeiam os conhecimentos nele adquiridos nas sessões espíritas."

Nesse mesmo ano (1931) Murilo de Campos e Leonídio Ribeiro publicam "O Espiritismo no Brasil", atacando o movimento espírita em bases médicas e psiquiátricas, e onde se lê: "A prática do espiritismo é um problema de polícia, é crime contra o código penal."

No ano seguinte (1932), a FEB lançou a obra Parnaso de Além-Túmulo, pela psicografia de Francisco Cândido Xavier, com grande repercussão na imprensa brasileira, como o tivera, em Portugal, no início do século, a coletânea Do País da Luz pela mediunidade de Fernando de Lacerda.

Em 1933 foi fundada, em São Paulo, a União Federativa Espírita, filiada à FEB. Mais tarde, em 1936, no mesmo estado foi criada a Liga Espírita, filiada à Liga Espírita do Brasil. No mesmo ano, pela Rádio Cultura de Araraquara, no interior do estado de São Paulo, Cairbar Schutel iniciou o primeiro programa radiofônico espírita no país (19 de agosto).

Quando da implantação do Estado Novo no país, em 1937, a repressão ao espiritismo aumentou. A própria FEB foi fechada pela polícia (27 de outubro) e reaberta, três dias depois, por ordem do então Ministro da Justiça, Dr. José Carlos de Macedo Soares. No ano seguinte (1938), vem a público a obra "Brasil, Coração do Mundo, Pátria do Evangelho", também pela psicografia de Francisco Cândido Xavier, atribuída ao espírito de Humberto de Campos.

O ano de 1939 foi marcado pela realização do I Congresso Brasileiro de Jornalistas e Escritores Espíritas.

A década encerra-se com a reforma do Código Penal, que deixou de criminalizar explícitamente a prática do Espiritismo (1940). Ainda assim, no ano seguinte (1941), todos os centros espíritas da então capital federal foram suspensos por portaria da polícia, do mesmo modo que todos templos afro-brasileiros. No Rio de Janeiro, foi fundada a Sociedade de Medicina e Espiritismo do Rio de Janeiro (11 de junho de 1941).

No contexto da Segunda Guerra Mundial, em 1944, no Rio de Janeiro, é lançada a obra "Nosso Lar", psicografada por Francisco Cândido Xavier, com autoria atribuída ao espírito André Luís e, a viúva do escritor Humberto de Campos (falecido em 1934) abriu processo contra a FEB e contra o médium Francisco Cândido Xavier, visando receber direitos autorais sobre as mensagens psicografadas atribuídas ao seu finado marido. Também nesta cidade, e neste ano (1944), foi fundada a Cruzada dos Militares Espíritas.

Em 1945 foi fundado o Hospital Espírita Pedro de Alcântara, no Rio de Janeiro. Nesse ano iniciou-se, em São Paulo, por iniciativa das suas federações, um novo processo pela unificação do movimento espírita no país, que dará lugar, em 1947, ao I Primeiro Congresso Espírita do Estado de São Paulo, pró-unificação. No ano seguinte (1948, ainda em São Paulo, tem lugar o Congresso Espírita Centro-Sulino, também pró-unificação.

Com o fim do Estado Novo, a Constituição brasileira de 1946 garantiu ampla liberdade religiosa no país.

No estado da Bahia, ao final da década, iniciou-se o trabalho assistencial de Divaldo Pereira Franco. Este, juntamente com um grupo de colaboradores, fundou em Salvador o Centro Espírita Caminho da Redenção (7 de setembro de 1947) onde, no ano seguinte, sob a orientação do espírito Auta de Souza, iniciou a "Caravana Auta de Souza", para o atendimento a famílias necessitadas (9 de setembro de 1948).

Dada a movimentação paulista em favor da unificação, tem lugar, no Rio de Janeiro, o evento mais importante do período: a aprovação dos dezoito itens do Pacto Áureo, considerado o mais importante documento do movimento espírita no país (5 de outubro de 1949).

O documento tinha a finalidade de unificar as federações estaduais em torno da FEB. No ano seguinte (1950) foi estabelecido o Conselho Federativo Nacional, composto pelo representantes das referidas entidades adesas. Ainda em 1950 partiu do Rio de Janeiro para a Região Nordeste do Brasil, a chamada Caravana da Fraternidade, integrada, entre outros, por Lins de Vasconcelos, Carlos Jordão da Silva e Leopoldo Machado. Como resultado, ampliou-se o número das federações estaduais no país.

As décadas de 1950 e 1960

O espiritismo no país foi marcado, na década de 1950 e na de 1960, por dois nomes: o de José Pedro de Freitas, popularmente conhecido por "Zé Arigó" - cuja prática mediúnica não se filiava à doutrina espírita ou a qualquer instituição oficial -, e à mediunidade de Francisco Cândido Xavier, popularmente conhecido por Chico Xavier. O primeiro respondeu a dois processos (1958 e 1964) e chegou a cumprir pena por prática ilegal da medicina, e o segundo foi acusado, em 1958, pelo sobrinho Amauri Pena, de fraude.

Foi ainda na década de 1950 que o padre Oscar Quevedo se radica no Brasil, iniciando uma ampla divulgação da parapsicologia como resposta às interpretações espíritas.

No contexto do movimento federativo que se difunde após a assinatura do chamado "Pacto Áureo, em 1953 a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil reitera a condenação católica ao espiritismo. No mesmo ano, a FEB declarou que os umbandistas poderiam ser considerados espíritas, o que causa vivas reações no movimento espírita.

Em 1960 vem à luz a obra "O Espiritismo no Brasil", de frei Boaventura Kloppenburg, militante católico contrário ao espiritismo.

Em 13 de dezembro de 1963 foi fundado, na cidade de São Paulo, o Instituto Brasileiro de Pesquisas Psicobiofísicas (IBPP), pelo pesquisador Hernani Guimarães Andrade.

As décadas de 1970 e 1980

A década de 1970 iniciou-se com as duas entrevistas históricas a Chico Xavier, veiculadas pela extinta TV Tupi Canal 4 de São Paulo, no programa "Pinga-Fogo", a primeira na noite de 28 de julho e a segunda na de 21 de dezembro de 1971.

A de 1980 pela campanha de proposição, no Brasil, de Chico Xavier para receber o Prêmio Nobel da Paz (1981). Ao final da década, tem lugar o Congresso Internacional do Espiritismo, em Brasília, de 1 a 5 de outubro de 1989.

Da década de 1990 aos nossos dias

Em 1995 tem lugar o Congresso Espírita Mundial, em Brasília, com 3000 inscrições.

Notas

1.  Conforme o historiador espírita Silvino Canuto de Abreu. O cabeçalho do periódico, dirigido por Quintino Bocaiuva, afirmava ser o jornal de maior tiragem e circulação na América do Sul.

2.  Este episódio é referido por alguns autores como o da fundação do "Centro Espírita do Brasil" (21 de abril de 1889), tendo Bezerra como seu primeiro presidente, que instalou a primeira Escola de Médiuns, junto com Elias da Silva.

3.  Para uma história da instituição, ver: Francisco Cândido Xavier. Queda e Ascensão da Casa dos Benefícios. Rio de Janeiro: Grupo Espírita Regeneração, 1991.

4.  Que viria a ser presidente da FEB

5.  Os "místicos" também seriam chamados de "bezerristas". Bezerra, aliás, seria atacado através de notas como esta: "Os argumentos do Dr. Bezerra de Menezes, em prol da sua orientação espírita, não passam de vistosas bolhas de sabão, sopradas pelo seu misticismo para deslumbrar a simplicidade ignorante dos que não sabem ou não querem se dar o trabalho de raciocinar." (SOARES, Sylvio Brito. Vida e Obra de Bezerra de Menezes. Rio de Janeiro: FEB, 1963.)

Referências

1. La Revue Spirite, julho de 1864, p. 213

2.  Na raiz da divergência encontrava-se a apreciação/estudo da obra Os Quatro Evangelhos de Jean-Baptiste Roustaing: por afinidade ideológica, a quase totalidade dos "místicos" defendiam-na, enquanto que a maioria dos "científicos" repudiavam-na. in: QUINTELLA, Mauro. História do Espiritismo no Brasil.

3. Reformador, agosto de 1973.

4. QUINTELLA, Mauro. História do Espiritismo no Brasil.

5. QUINTELLA, Mauro. História do Espiritismo no Brasil. O mesmo autor indica que a edição de Novembro da revista da Sociedade Acadêmica apresenta uma relação de instituições filiadas até aquele mês.

6. Reformador, 1924, p. 497.

7.  A proposta era a de fundar-se uma instituição ideologicamente neutra, que não fosse nem "mística", nem "científica". QUINTELLA, Mauro. História do Espiritismo no Brasil.

8. QUINTELLA aponta ainda que: "Para comprovar a neutralidade da nova sociedade, os científicos Angeli Torteroli e Joaquim Távora são convidados a se cadastrarem como sócios-fundadores." (Op. cit.)

9.  O Reformador de 1 de janeiro de 1884, assim referiu o fato: "Acha-se em via de organização a Federação Espírita Brasileira. Fitando o largo horizonte da propaganda escrita, acreditamos que prestará serviços da máxima importância para a vulgarização dos princípios filosóficos do Espiritismo."

10.  O médium foi visitado, numa casa de pensão onde se hospedara na Glória, por uma comissão da Federação Espírita Brasileira, composta por Bezerra de Menezes, Antonio Sayão, e outros, tendo Slade fornecido provas incontestáveis de sua mediunidade.

11. Este profissional afirmou que dos casos por ele estudados no Pavilhão de Assistência a Psicopatas, 1.723 pessoas enlouqueceram "só exclusivamente pelo espiritismo" (Op. cit.).

12. A sentença foi favorável aos réus.

13.  "Baseados em Kardec, é-nos lícito dizer: todo aquele que crê nas manifestações dos espíritos é espírita; ora, o umbandista nelas crê, logo, o umbandista é espírita." (Reformador, julho de 1953, p. 149). Anos mais tarde, em 1958, o Segundo Congresso Brasileiro de Jornalismo e Escritores Espíritas opôs-se considerar os umbandistas como espíritas. Duas décadas mais tarde, em 1978 o Reformador, órgão oficial da FEB, publica que a designação de "espíritas" pelos umbandistas é "imprópria, abusiva e ilegítima".

Bibliografia

* Esboço histórico da Federação Espírita Brasileira. FEB.

* GOMES, Saulo (org.). Pinga-fogo com Chico Xavier. Catanduva (SP): InterVidas, 2009. 256p. fotos. ISBN 978-85-60960-00-2

* KARDEC, Allan. Revista Espírita - Jornal de Estudos Psicológicos (12 volumes). São Paulo: Edicel, 1985.

* MACHADO, Ubiratan. Os Intelectuais e o Espiritismo. Niterói (RJ): Lachâtre, 1996.

* THIAGO, L. S.. Homeopatia e Espiritismo (2ª ed.). Rio de Janeiro: FEB, 1983.

* TORTEROLI, Angeli. O Espiritismo no Brasil e em Portugal. Rio de Janeiro: Sociedade Acadêmica.

* WANTUIL, Zeus. Grandes Espíritas do Brasil. Rio de Janeiro: FEB, .

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