quinta-feira, 23 de junho de 2011

Aurélio Quintus Pompeu

Matéria publicada no Jornal Mundo Espírita - março/2006

O filho do oficial romano

Quantos terão privado da presença de Jesus, ao tempo em que Ele andou pelos caminhos terrenos?
O Evangelista João, ao se referir aos ditos e feitos do Mestre, sabiamente assinalou: "Muitas outras coisas há que fez Jesus, as quais, se se escrevessem uma por uma, creio que nem no mundo todo poderiam caber os livros que seria preciso escrever." (2)

Pensamos que, igualmente, foram tantas as pessoas que tiveram contato com Jesus, que se beneficiaram de Sua palavra, de Seus ensinos que, dificilmente, poderemos ter a exata noção de quantos foram.

Assim, nas obras espíritas, encontramos preciosas pérolas que nos informam de um ou outro personagem, cuja vida, após o encontro com Jesus, se transformou e cujos feitos altruístas ficaram somente dEle conhecidos.

Um desses é Aurélio Quintus Pompeu, filho de um modesto oficial da legião romana da Judéia e de uma jovem grega, que ele conhecera e com quem se casara, em Jerusalém.

O oficial romano cedo desencarnou, durante uma expedição em que combatia uma dessas rebeliões, tão freqüentes na Judéia e na Palestina.

Léa, a jovem mãe, ficou com o pequenino Aurélio nos braços, ao sabor de aflitiva pobreza. Temerosa que Roma lhe tomasse o filho, não procurou as autoridades competentes, para rogar socorro e passou a trabalhar.

Dava lições de grego, tecia colchas e tapeçarias, vendia frutos do seu quintal, doces que fabricava em sua modesta cozinha, enfim, tudo fazia para criar o filho, ensinando-lhe os princípios da boa educação.

Quando João, o Batista, iniciou suas pregações em Betabara, no vau do Jordão, a convite de vizinhos que com ela insistiram, Léa foi ouvi-lo. Embora estrangeira, ela já adotara a crença de Israel, no Deus único.

Levou o filho, de apenas 7 anos, consigo. Era inverno. O pequeno Aurélio ouviu, junto com sua mãe, as pregações de João, durante três dias.

E, como o Batista falava que o Messias já estava na Galiléia, o trajeto seguinte foi naquela direção.
Léa tornou-se cristã, despertando a atenção do filho para as pregações de Jesus. E o menino, levado pela mãe, ouviu o Sermão da Montanha, ouviu Jesus nas Sinagogas, nas praças públicas, assistiu, maravilhado, a inúmeras curas.

Finalmente um dia, a instâncias de sua mãe, foi abençoado pelo Mestre que sobre ele apôs as Suas mãos.

Aurélio ainda participou da ovação, na célebre entrada de Jesus em Jerusalém. Depois, foram as horas de tristeza da prisão e condenação dAquele que era a Esperança, a Vida, o Caminho. Arrastado pela mãe, seguiu o infeliz cortejo, no meio do povo, até o Calvário. Foi a primeira vez que ele contemplou o suplício da cruz. O dia estava quente, o sol abrasador lhe queimou as costas nuas pois, nesse dia, dada a pressa com que havia circulado a notícia da condenação do Mestre, a mãe até esquecera de vestir de forma conveniente seu filho.

A tristeza abateu-se naquele lar. Léa, traumatizada pelo horror que presenciara, teve forte crise nervosa e recolheu-se ao leito. A febre a parecia devorar.

Aurélio, então com seus dez anos, não sabia se chorava mais pelo amigo morto ou pela mãe enferma. Em meio à tristeza, entretanto, era preciso moer os grãos para a farinha e o pão, bater a massa, fritar os peixes, acender o fogo para cozer os nabos, as couves, servir o caldo à doente, lavar os pratos.

No domingo, terceiro dia da morte de Jesus, tudo se modificou. Os vizinhos entraram correndo pela casa, anunciando que o Mestre de Nazaré ressuscitara.

Ele aparecera a Maria de Magdala, Simão e João haviam encontrado o túmulo vazio, a cidade toda estava agitada.

Léa levantou-se do leito e vestiu-se. Ainda trêmula de fraqueza e de emoção partiu com os amigos, à procura de mais notícias sobre o empolgante acontecimento.

Aurélio a seguia, o coração pulsante de alegria, correndo e gritando, imitando o que ouvia outros repetirem: "Aleluia! Hosanas ao Filho de David que ressurgiu dos mortos!"

Era importante sair às ruas e bradar do triunfo depois da morte na cruz, anunciar a todos a grande novidade...
Os anos seguintes mostrariam que os paladinos do Cristo, que deveriam espalhar a Boa Nova pelo mundo inteiro, haveriam de pagar com muitas dores, a sua ousadia.

Perseguições foram desencadeadas e eles passaram a ser banidos e mortos. Na primeira perseguição, em Jerusalém, após a morte de Jesus, Léa foi morta a golpes de sabre, enquanto ouvia oradores cristãos, na praça pública.

Aurélio era um adolescente de treze anos. Recolhido em casa de amigos, com os quais mais se ilustrou nos princípios da nova Doutrina, cedo iniciou seu apostolado.
Desejava ser cidadão do Cristo, ter a honra de servi-lO. À semelhança de outros tantos servidores anônimos, O serviu com denodo e dignidade.

Finalmente, acompanhando caravanas de cristãos que desejavam levar ao coração do grande Império dos homens a notícia do Reino de Deus, foi a Roma.

Ali, com amor e abnegação falou do que vira, de Lázaro arrancado das trevas da morte, de Zaqueu conquistado para o Reino de Deus, do que presenciara, do que ouvira.

Um dia, já com cerca de quarenta anos de idade, Aurélio foi preso. A condenação foi a morte em um poste do Circo de Nero, incinerado, iluminando a noite de loucuras humanas.

Sua morte foi suave, contudo, apesar da atrocidade por parte dos que se transformaram em carrascos de outros homens.
Jesus apareceu aos condenados na hora suprema, estendeu-lhes a mão, como costumava fazer em Suas prédicas nas praias da Galiléia e deixou que ouvissem Sua voz, reafirmando:

"Eu sou a Ressurreição e a Vida! O que crê em mim, ainda que esteja morto, viverá. E todo o que vive, e crê em mim, não morrerá eternamente!" (1)

Bibliografia:


1. PEREIRA, Yvonne A. Ressurreição e Vida! In:___. Ressurreição e vida. Pelo espírito Léon Tolstoi. 2. ed. Rio [de Janeiro]: FEB, 1965. cap. VI.
2. BÍBLIA, N.T. João. Português. Bíblia Sagrada. 6. ed. São Paulo: PAULINAS, 1953. cap. 21, vers. 25.

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