sexta-feira, 20 de maio de 2011

Apio Corvino - O pregador de Lugdunum

Ele estava em Roma, no ano 217. Sua palavra vibrante e emotiva, aos 70 anos, que algumas rugas assinalavam nas faces serenas, atraía aos cemitérios um grande número de cristãos. Os cemitérios eram, então, os lugares onde se reuniam aqueles que desejavam ouvir a Boa Nova, o Evangelho de Jesus. Entre as tumbas que ostentavam versos de imortalidade, nunca de negação à vida, tais como "Crescêncio vive", "Festo, Jesus te abençoe", as palavras de vida eterna eram bebidas a horas mortas.

Ápio Corvino, nascido nas Gálias, ainda jovem se decidiu ao trabalho da fé, o que lhe valeu o repúdio de muitos. Por causa disso, exilou-se em Alexandria por dez anos, onde adquiriu valiosas experiências.

Em Lugdunum, a velha Lyon, situada entre os rios Rhône e Saône, votara-se ao trabalho na igreja de São João. Com o objetivo de prover às necessidades das crianças mantidas pela igreja, ele trabalhava na agricultura e na jardinagem. Também viajava freqüentemente, angariando fundos.

Lyon foi fundada em 43 a.C., pelos romanos e por sua admirável posição geográfica, se tornara expressivo centro político administrativo do mundo gaulês.

A comunidade cristã da localidade se sentia depositária das mais vivas tradições do Evangelho. Os cristãos formavam uma verdadeira família. Enquanto as perseguições eram atrozes, fazendo-se multiplicar os postes de martírio, espetáculos de feras, cruzes, fogueiras, chicotes e selvageria para com mulheres e crianças, os remanescentes das perseguições eram amparados: velhos, enfermos, mutilados, mulheres, crianças e jovens.

Naquele ano de 217, pois, Corvino estava na capital romana angariando fundos para levar para os abrigados pela Igreja de São João.

Enquanto ali se demorava, os cristãos acorriam para ouvi-lo. Ele narrava, com memória invejável, os acontecimentos dos martirológios dos seguidores do Cristo, nas perseguições de 177.

Lembrava-lhes a fortaleza moral nos interrogatórios, as respostas inspiradas, os suplícios em pormenores. Espancamentos, humilhações, a tortura da cadeira de ferro incandescido eram recordados por ele, entre lágrimas, eis que alguns dos martirizados lhe tinham sido amigos devotados.

Para os que o ouviam, constituíam-se ingredientes que os vinham fortalecer para os embates que viriam a qualquer momento.
E, depois, com ardor juvenil, sua palavra firme pregava a necessidade da paciência e da esperança, para a implantação do Reino de Deus na Terra dos homens.

Fora iniciado na fé por Átalo de Pérgamo, que testificara sua adesão ao Cristo, entre torturas que foram do chicote à degola, e que envolveram um processo moroso, em simulacro de justiça.

Antes de entrar no anfiteatro, para o martírio final, conversaram orientador e discípulo. Corvino era, então, jovem, e sentia o coração se despedaçar ante a marcha para o sacrifício do especial amigo.

Esse, no entanto, seguro da vida que não perece, lhe prometera acompanhar-lhe os passos. E assim o fez, ao longo dos anos, amparando-o da Espiritualidade, como amigo fiel, nas horas de inquietação e nos dias cinzentos de tristeza.

Naquele seu périplo doutrinário, Corvino planejara visitar a comunidade de Cartago, na África, antes de retornar a Lugdunum. Assim, quando um amigo, de nome Quinto Varro, lhe acena com a possibilidade de lhe conseguir transporte em navio no qual ele próprio se deslocaria até àquela cidade, Corvino se reúne a ele, agradecido.

Embarcou no posto de Óstia, em soberba trirreme, alojando-se em câmara estreita, reservada a Quinto Varro, próxima ao alojamento do capitão. Sua bagagem era reduzida: uma túnica gasta, uma pele de cabra e uma bolsa com documentos.

O amigo o ajudou a se instalar e passaram a conversar. Ápio tinha planos para a igreja de Lyon, entre outros, consolidar o trabalho de assistência social, em nome do Cristo.

O tempo foi devorando as horas, enquanto trocavam apontamentos e considerações. Quando o navio se pôs em movimento, Ápio Corvino externou um sorriso, qual o de uma criança que se prepara para uma festa.

As pancadas rítmicas dos martelos, controlando a ginástica dos remadores foram os ruídos que dominaram por algum tempo. Depois, o vento se manifestou forte.
Corvino não acompanhou o amigo à proa. Desejava deitar-se, orar e descansar um pouco.

O que nenhum dos dois sabia é que a viagem de Quinto Varro fora ardilosamente maquinada, a fim de que a vida lhe pudesse ser ceifada e o corpo jogado ao mar. Interesses escusos comandavam as mentes.

No entanto, entre os encarregados da execução do terrível plano, havia um homem a quem o pai de Varro salvara em certa oportunidade. Em nome dessa gratidão, esse decide salvar-lhe a vida. Ordena, pois, ao assassino contratado que adentre a cabine e elimine o velho Corvino, em lugar daquele.

Quando o jovem romano retorna à cabine para o repouso, descobre o pregador ferido. Uma rosa de sangue cobria-lhe as vestes. O ancião lhe confia recomendações, cartas e recursos que devem ser entregues à igreja de Lyon. Depois, deseja ver o céu, ouvir uma página cristã.

Uma folha gasta de pergaminho é lida à claridade bruxuleante da tocha. Corvino sorri, oferecendo a Deus e aos homens o seu próprio coração.

Finalmente, o fatigado coração do apóstolo parou, a respiração desapareceu, o corpo se inteiriçou.

Pouco depois, o cadáver foi envolvido em grande lençol, amarrado e jogado ao mar. Ápio Corvino encerrava sua etapa reencarnatória, retornando ao lar, vitorioso, para ser recebido por centenas de estrelas brilhantes, seus amigos que o vieram receber no portal da nova vida.

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