sábado, 23 de abril de 2011

Helen Duncan

A médium escocesa Helen Duncan (1897-1956) esteve a serviço dos angustiados e desiludidos que perdiam seus parentes durante a Segunda Guerra Mundial. Helen foi uma trabalhadora de poucos recursos.

Seu esposo Henry Duncan foi ferido durante a Primeira Guerra Mundial e ficou incapacitado para o trabalho. Dos doze filhos que o casal teve, apenas seis sobreviveram às doenças e dificuldades normalmente encontradas por quem não possui recursos para atender a necessidades básicas.

A escocesa atuava como médium profissional, contudo, frequentemente usava os recursos obtidos para auxiliar no atendimento aos doentes que não podiam pagar pelo tratamento médico. Realizando suas sessões em igrejas espiritualistas, seu trabalho era intermediar o contato entre os militares desencarnados em batalhas da Segunda Guerra com os familiares ansiosos por notícias.

Porém, sua mediunidade também apresentava outro recurso, e foi esta outra capacidade que a colocou em confronto com autoridades militares e judiciais. Em 1941, durante uma reunião mediúnica, ela recebeu a informação que o Encouraçado HMS Hood, pertencente à Marinha Real Inglesa, tinha sido afundado.

O afundamento realmente tinha ocorrido, mas a notícia ainda não tinha chegado ao conhecimento do público. Dois anos depois ela anunciou o afundamento de outro navio de guerra, desta vez foi o HMS Barham; a Marinha somente anunciou tal ocorrência três meses depois. A partir destes dois acontecimentos sua vida mudou completamente.

Na noite de 19 de janeiro de 1944, ela estava reunida em Portsmouth, no sul da Inglaterra - é bom que se esclareça que aquela região era um alvo constante dos bombardeiros alemães -, durante a sessão ela foi interrompida por um policial que estava presente; ele tentou agarrar uma materialização, mas não foi rápido o suficiente. Como conseqüência, a policia levou Helen e mais três assistentes e os prendeu sob a acusação de vadiagem. Para tal denúncia bastaria ser paga uma multa de três xelins para que fosse efetuada a liberação.

Contudo, recusaram a fiança e a encaminharam para Londres, e a encarceraram por quatro dias na prisão feminina Halloway, para onde eram enviadas mulheres acusadas de assassinato, espionagem e traição. De forma inesperada a acusação foi alterada de vadiagem para conspiração.

Logo em seguida, a enquadraram em uma antiga lei, a Witchcradt Act (Ato de Feitiçaria), de 1735, criada no tempo da Inquisição. Pelo que os espiritualistas ingleses apuraram posteriormente, havia um grande interesse em fazer crer que Helen fosse uma fraude. Além disso, surgiu um rumor que sua prisão fora realizada para que ela não revelasse a data em que os aliados pretendiam realizar do "Dia D" (quando os aliados deflagraram uma ação conjunta para enfraquecer o exército alemão e que teve sua origem no desembarque na Normandia, França, em 06 de junho de 1944).

A paranóia parecia ter alcançado seu ápice; uma simples trabalhadora, dona de casa tornara-se uma ameaça às potências militares? Testemunhas surgiram em sua defesa de todas as partes da Grã-Bretanha; elas contavam os fatos que evidenciavam não somente os dons mediúnicos de Helen, mas sua predisposição em auxiliar na consolação de parentes aflitos.

Entre elas se apresentou o respeitado acadêmico e profundo conhecedor da obra de Shakespeare, Alfred Dodd, que comprovou ter estado em uma reunião, quando seu avô se materializou. Também o conhecido jornalista e co-fundador da revista espiritualista "Psychic News" (Notícias Psíquicas), Hannen Swaffer, esteve presente e rebateu as acusações de que o ectoplasma oriundo da médium era feito de uma mistura amanteigada.

Outro que testemunhou em favor de Helen, foi o jornalista e historiador inglês James Herries Beattie, que alegou ter assistido a uma materialização de Arthur Conan Doyle, durante uma reunião com a médium. A defesa de Helen Duncan sugeriu algo que colocou a acusação em uma difícil situação. Realizariam uma sessão mediúnica perante a corte inglesa para provar a veracidade das alegações da defesa.

O tribunal não chegou a um consenso e a sessão não se realizou. No julgamento ela foi enquadrada como praticante de feitiçaria e inocentada das outras acusações; o juiz a condenou a nove meses na prisão Halloway. O movimento espiritualista ficou chocado com a decisão, ainda mais considerando que a lei em que foi baseada a decisão tinha mais de duzentos anos. Ainda assim foi negada a possibilidade de apelação e Helen foi encarcerada. Relatos dão conta que durante os meses de reclusão, a porta de sua cela nunca foi trancada pelos guardas da prisão e sempre era franqueado o acesso a visitas.

Até mesmo o Primeiro Ministro inglês Winston Churchill saiu em sua defesa, escrevendo uma nota para o secretário do governo. No entanto, sua lógica apelativa não encontrou aceitação e ela continuou presa. Vale a pena realizarmos uma pequena pausa para tratarmos acerca de um episódio interessante envolvendo o Primeiro Ministro.

O fato está contido em sua autobiografia: Durante a Guerra Bôer, que ocorreu na África do Sul, entre 1899 a 1902, e que envolveu de um lado os ingleses e de outro os africânderes, Winston era um correspondente de guerra. Ele foi capturado e depois conseguiu escapar. Utilizando método semelhante ao da "planchette", ele consultou Espíritos e ficou sabendo de uma casa a trinta milhas de onde estava, na qual os moradores eram simpatizantes dos ingleses. No local ele foi recebido e contou com a proteção até ser resgatado pelo exército inglês; caso batesse em outra casa poderia ter sido novamente aprisionado.

Por influência de Churchill, o Witchcraft Act foi revogado em 1951, uma vitória para os espíritas e os espiritualistas, que podiam exercer a Mediunidade sem o temor da opressão. Retornemos aos relatos envolvendo Helen e seu martírio. Sob juramento de não mais realizar sessões mediúnicas, Helen foi solta em 22 de setembro de 1944.

Contudo, o apelo mediúnico foi muito forte e ela voltou às atividades. Todavia, a intolerância ainda possuía profundas raízes. Em novembro de 1956, a policia invadiu uma sessão na cidade de Nottingham. Agarraram a médium e fizeram uma revista corporal, alegando procurarem máscaras e barbas que evidenciassem uma fraude. A médium era Helen, que estava em pleno trabalho de materialização, em profundo transe.

No início de sua Mediunidade os Espíritos orientadores tinham dito que ela jamais poderia ser tocada enquanto a materialização estivesse em andamento, sob pena de trazer danos irreparáveis. Helen Duncan passou mal e foi levada para atendimento médico. O profissional descobriu que ela estava com graves queimaduras no estomago.

Ela foi levada de volta para sua casa e depois hospitalizada. Cinco semanas depois desencarnou em virtude das queimaduras. Um busto de bronze homenageia Helen Duncan em Callander, Escócia, sua cidade natal.

Fontes:

- Revista Espírita Cristão do Terceiro Milênio
Autor: Licurgos de Lacerda Filho
Livro: A Mediunidade Na História Humana

Nenhum comentário:

Postar um comentário