segunda-feira, 21 de março de 2011

Zaqueu

Matéria publicada no Jornal Mundo Espírita - novembro/2003

Jericó era um oásis, situada nos confins da Judéia e Peréia. Tradicionalmente conhecida como a cidade mais antiga da Terra, datando entre os milênios X e VII a.C. O clima suave e tépido era propício a que vicejassem as palmeiras. Era considerada um paraíso de delícias, com seus roseirais, extensas alamedas e fartos pomares.

Várias fontes, devidamente canalizadas, levavam vida e opulência a todas as artérias da cidade. Sendo o mais importante centro comercial de Israel, ao tempo de Jesus, tinha Jericó uma alfândega muito movimentada. Como um grande empório do país, possuía inúmeras casas de câmbio, casas de vendas por atacado aos varejistas da região e depósitos de mercadorias.

Ali morava um judeu, de nome Zaqueu, que arrematara em hasta pública a arrecadação dos tributos, tendo assinado um contrato com a autoridade romana pelo período de 5 anos. Além de conduzir os interesses da aduana, ele dirigia suas transações particulares, aumentando sua fortuna com sucessivos lucros.

Desprezado pelos fariseus, por transigir com os romanos; invejado pelos saduceus, provocava a cólera dos zelotes, por considerarem ofensa aos brios de Israel pactuar com os agentes de César. É certo que os que mais impiedosa campanha lhe moviam eram os perdedores, os que haviam disputado a função de coletor de impostos e não a conseguiram.

Zaqueu e sua mulher viviam isolados da vida social de Jericó. Quando a grande casa de família se iluminava para as festas domésticas, a prataria desfilava, o perfume do nardo se misturava ao cheiro suave das flores e das frutas, enquanto uma orquestra enchia de sons claros as salas.

Mas os convidados eram sempre e unicamente os funcionários da alfândega, os parentes de Zaqueu e um ou outro mercador. Nenhum homem importante da cidade, nem mesmo um escriba, freqüentava-lhe a casa.

Enquanto acariciava os filhinhos, mais de uma vez, Zaqueu sentiu apertar-se-lhe o coração, imaginando o dia em que eles descobririam os motivos pelos quais lhes era proibido brincar com os filhos dos fariseus.

Zaqueu era extremamente rico, mas tinha uma consciência de inferioridade, face ao tratamento que recebia do seu povo. Até mesmo mendigos, a não ser que fossem estrangeiros, rejeitavam a sua oferta de moedas.

Sua consciência lhe dizia que nunca prejudicara a ninguém, pois que procurava ser justo.

Então, às vésperas da Páscoa, quando milhares de peregrinos passavam por Jericó, em direção a Jerusalém, numerosas pessoas trouxeram as notícias de que o Rabi da Galiléia, a quem chamavam Jesus de Nazaré, chegaria a cidade.

Zaqueu já ouvira falar dEle e uma secreta simpatia o invadira. Aquele era o homem que dizia que todos deveriam se amar como irmãos, que comia à mesa dos publicanos e se misturava com o povo.

Ao cair da tarde, quando as casas comerciais fecharam suas portas, Zaqueu se dirigiu ao lar. Altos gritos, contudo, o fizeram dirigir-se à porta setentrional da cidade.

Bartimeu, o conhecido cego, gritava a plenos pulmões que Jesus de Nazaré o curara. A multidão se precipitou para a estrada. Também Zaqueu.

De pequena estatura, gordo, com o ventre arredondado, as maçãs do rosto muito largas, pernas curtas, por mais se pusesse na ponta dos pés, não conseguia ver coisa alguma.

A um homem que passava com um jumento, ofereceu moedas para lhe comprar o animal. Foi olhado com desdém. A um muito alto e encorpado, perguntou se poderia erguê-lo e o pagaria bem. O israelita lhe respondeu que jamais serviria de alimária a um publicano.

E Zaqueu, no meio da multidão, foi sendo empurrado, pisado. Depois de algum tempo, conseguiu sair para a beira da estrada. Foi daí que viu um sicômoro, uma espécie de figueira e amoreira. As raízes saltavam grossas e rugosas à flor da terra. Ele subiu e um largo sorriso lhe iluminou o rosto. Podia, afinal, ver Jesus.

Ébrio de felicidade, juntou-se aos gritos da multidão, que O aclamava.

Quando o Mestre passou pela árvore, olhou para cima e ao ver aquele homem agarrado aos galhos, como se fosse um fruto, lhe disse:

"Zaqueu! Desce depressa, porque hoje me convém pernoitar em tua casa."

O homem desceu presto da figueira, correu para casa, dizendo para si mesmo:

"Não sou digno! Não sou digno!"

Mentalmente, revê os negócios. Terá lesado alguém? Terá recebido a mais? Talvez tenha comprado terras a preço irrisório e as vendido com lucro excessivo. Sente-se atormentar.

A mulher começa a preparar, com os servos, as iguarias. Perfuma a casa. Chama os filhos. Prepara o leito com panos finos, importados de Sídon. Nada é suficientemente bom para receber o Rabi.

"O que fazer para ser digno?" pensa o cobrador de impostos.

Recorda que, à conta desse gesto, poderá recrudescer o ódio dos fariseus contra Jesus.

Sai à rua. Jesus caminha devagar. A multidão à Sua volta, como se fosse um murmúrio de maré.

Emocionado pela visita do amigo, Zaqueu violenta a própria timidez. E como num discurso nervoso, fala alto o suficiente para ser ouvido, não somente pelo amigo, mas inclusive pela massa popular:

"Senhor, eis que dou aos pobres metade dos meus bens; e, se nalguma coisa tenho defraudado alguém, o restituo quadruplicado! Entra na minha casa!"

Restituir quadruplicado era penalidade da Lei Romana e, em alguns casos, também do Código de Israel, aos que utilizassem de injustiça para com os demais. Nesse momento, Zaqueu se faz juiz e acusador de si próprio.

Jesus sorriu, um riso leve e bom como um sopro de amor.

"Hoje - disse suave - veio a salvação a esta casa, pois também este é filho de Abraão. Porque o Filho do Homem veio buscar e salvar o que se havia perdido."

Depois adentrou o lar do publicano, servindo-se da noite para ensinar, narrando a inconfundível parábola das dez minas.

Narram tradições evangélicas que, anos mais tarde, Simão Pedro convidou o antigo publicano a dirigir florescente comunidade cristã, nas terras de Cesaréia.

E Zaqueu, rico de amor e humildade, foi servir a Jesus, servindo aos homens.

Bibliografia:

01.FRANCO, Divaldo Pereira. Inesquecível diálogo. In:___. Pelos caminhos de Jesus. Pelo espírito Amélia Rodrigues. Salvador: LEAL, 1987. cap. 18.

02.______. Zaqueu, o rico de humildade. In:___. Primícias do reino. Pelo espírito Amélia Rodrigues. Rio [de Janeiro]: SABEDORIA, 1967.

03.ROHDEN, Huberto. Zaqueu. In:___. Jesus nazareno. 6. ed. São Paulo: UNIÃO CULTURAL. v. II, nº 135.

04.SALGADO, Plínio. O rico humilde. In:___. Vida de Jesus. 21. ed. São Paulo: VOZ DO OESTE, 1978. pt. 4, cap. LX.

05.TEIXEIRA, J. Raul. Jesus e Zaqueu. In:___. Vida e mensagem. Pelo espírito Francisco de Paula Vitor. Niterói: FRÁTER, 1993. cap. 21.

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