terça-feira, 22 de março de 2011

Rufo

Matéria publicada no Jornal Mundo Espírita - janeiro/2006


O escravo fiel


O ano de 233 caminhava para sua conclusão. A pequena igreja de São João, em Lyon, mobilizava todos os recursos para amenizar os problemas do povo, assolado pela peste que procedia do Oriente, fazendo muitas vítimas.

A ignorância da época não tardou a sugerir que a peste seria produto da ira celeste. Vingança das divindades olímpicas por causa da "praga cristã" que se alastrava pelos lares.

Na quinta do romano Opílio Vetúrio, seu enteado Taciano se revela feroz perseguidor dos cristãos. Em criança, tivera o pai assassinado e lhe haviam incutido na memória que tinham sido nazarenos fanáticos os responsáveis.

Pretendendo se casar e passar a residir naquela propriedade rural, resolve destruir o que adjetiva como disparates.

Reúne todos os servos a fim de que prestem juramento aos deuses de Roma. Na extensa herdade, instalada uma soberba estátua da deusa Cíbele e um altar, pede a cada um que declare em voz alta fidelidade às crenças romanas.

Todos os escravos, um a um, reafirmam as frases exigidas. Até que o escravo mais antigo da herdade se aproxima. É Rufo.

Seu perfil bronzeado se ergue, quando chega a sua vez, e com voz cristalina e dominadora, afirma:

- Juro respeitar os imperadores que nos governam, mas sou cristão e renego os deuses de pedra, incapazes de corrigir a crueldade e o orgulho que nos oprimem no mundo. (2)

O burburinho se instala. Ele é recordado de sua condição de escravo e convidado a abjurar, perante a sublime Mãe dos Deuses.

Nada o demove. Ele é escravo, sim, cumpridor leal de seus deveres, mas seu espírito é livre, afirma.

Por ordem do algoz, Rufo é convidado a despir a túnica e ajoelhar-se, com as mãos para trás.

O chicote cortante lhe alcança a pele nua por três vezes. Os vergões sangram. Ele permanece firme:

- Sou cristão.

Dada sua persistência, o chicote o maltrata, sem piedade, inúmeras vezes e seu corpo se transforma em feridas sangrentas.

Face ao mal-estar geral, ante o ato de selvageria, Taciano manda que recolham o escravo ao cárcere.

Então, Caio Júlio Vero Maximino sobe ao trono romano, sedento de sangue e de poder. Os cultivadores do Evangelho enchem os calabouços e os anfiteatros, ante a perseguição cruel.

Em Lyon, a igreja é interditada, os religiosos expulsos.

Os seguidores de Jesus, como os druidas do passado, se internam nas florestas, trans-formando-as em catedrais de arvoredo, sob o firmamento de estrelas, para orar e comentar as lições evangélicas.

Ali, o questor Quirino, intrigante e caluniador, aventa a idéia de que cada senhor, em sua própria casa, realize o expurgo dos cristãos.

Começa trucidando seis dos seus cativos, em ruidosa festa. No palácio rural de Opílio, decide-se dar a última oportunidade ao velho e teimoso conhecido Rufo.

Marca-se dia para o que chamam a recuperação de Rufo. Todos os escravos são convidados para o ato e pensa-se em qual seria o mais adequado método de o exterminar, caso permaneça fiel aos seus princípios.

O machado para a decapitação? Alguém mais cruel sugere que o servo seja arrastado pela cauda de um potro selvagem. Seria um quadro festivo digno de ser visto.

A esposa de Rufo, Dioclécia e as duas filhinhas, Rufília e Diônia são trazidas. Desejam abraçá-lo, após o período de separação, mas são impedidas.

A escolha lhe é colocada: ou ele jura fidelidade aos deuses ou a sua família será vendida a terceiros.

O prisioneiro, de cabeça sempre ereta e altiva, baixa o rosto até o chão. Ajoelha-se, pede compaixão. Invoca os tantos anos de fidelidade aos seus senhores. Ali nascera, crescera e trabalhara até então.

Vetúrio permanece impassível. Nada o demove. Rufo reergue a fronte. Recupera a serenidade.

Olha a esposa, estende os braços e a pequenina de 4 anos, Diônia se precipita para ele: Vem conosco, papai?

Há ternura no olhar de Rufo. Estanca as lágrimas. Todos percebem a inabalável firmeza que o domina.

Eleva os olhos ao céu e a prece íntima brota.

Nada teme. Nem a ameaça de ver entregues a estrangeiros sua esposa e filhas, nem a ameaça do flagício.

Senhor - responde a Opílio - os que vão morrer colocam-se à frente da verdade... Não temo a morte, que para mim é libertação e vida.

E realiza um discurso, reafirmando a sua fé. A família será vendida? Ele sofre, sim, mas recorda que todos os padecimentos são semelhantes às sombras ralas da madrugada que se misturam à luz nascente de novo dia!...(1)

O chicote estala no rosto do escravo. Sob seus olhos, Vetúrio conclui o negócio com o mercador, entregando a família do escravo.

Um potro bravio é trazido. O animal relincha, escouceia e, enquanto Rufo é atado à cauda do animal, o comprador de cativos se aproxima do condenado, sussurando-lhe aos ouvidos:

Tua família encontrará um lar em nossa casa da Aquitânia. Morre em paz, eu também sou cristão.(1)

Um sorriso se estampa no semblante do mártir, pela primeira vez, naquele dia de tão dolorosos testemunhos.

O animal dispara, entrando em matagal próximo, levando a carga preciosa que vai sendo dilacerada, pelo caminho.

Mais tarde, mulheres piedosas da igreja foram lhe recolher os despojos.

Era um escravo e a sua morte, qual a de outros tantos servidores fiéis, mais alimentou a chama do idealismo santificante.

Por muito tempo ainda, os cristãos se ofereceriam em holocausto, em nome da Verdade, com a certeza de que tudo na Terra é transitório e Jesus reina, acima dos homens.

Bibliografia:

1. XAVIER, Francisco Cândido. No caminho redentor. In:___. Ave, Cristo! Pelo espírito Emmanuel. 3. ed. Rio [de Janeiro]: FEB, 1966, pt. 1, cap. VI.
2. ______. Reencontro. Op. cit. pt. 1, cap. V.

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