quinta-feira, 17 de março de 2011

Fotina

 Matéria publicada no Jornal Mundo Espírita - junho/2004

Um arauto na Samaria. A tradição oral acatou e conservou, até os nossos dias, a denominação de "A Iluminadora" que lhe conferiram os primitivos cristãos, que se nutriram na sua coragem de proclamar as imperfeições e pela afeição com que se ligou a Jesus.

Calcula-se que o fato se deva ter dado entre os meses de dezembro/janeiro, pois que, em seu diálogo posterior, registrado pelo Evangelista João, em seu capítulo 4:35, Jesus se refere à colheita do trigo que se deveria dar quatro meses empós, o que seria, pois, entre os meses de março ou abril.

Jesus se encontrava na Peréia, quando soube da prisão de João Batista e, com o intuito de não acirrar ainda mais os ódios dos seus inimigos, com a Sua presença, retirou-se para a Galiléia.

Havia três caminhos a escolher: um, pelo litoral do Mar Mediterrâneo, outro, pelas margens do Jordão e, finalmente, pelo interior da Samaria. Este último foi o que o Mestre preferiu.

Ele deseja um encontro. Galga a serra de Efraim, contornando o monte sagrado onde os samaritanos adoravam Jeová. O caminho é áspero e cansativo, desenvolvendo-se sobre despenhadeiros, entre pedregulhos e calhaus.

À hora sexta (meio-dia) Jesus e os discípulos atingem o fundo do declive, onde os prados se desenrolam, cobertos pelas searas e se ergue, todo em alvenaria, o poço de Jacó. Era costume, entre os samaritanos, denominar as localidades com nomes patriarcais. Os companheiros se dirigem à cidade próxima, Sicar, a fim de adquirir pão e frutas. O Mestre prefere esperar.

É como se Ele tivesse marcado um encontro. Ele aguarda. Quem? Será um personagem importante ou uma alma virtuosa? Não: a pessoa que virá será alguém sem nenhuma importância e carregada de culpas.

Não tardou a aparecer uma mulher samaritana. Trazia um cântaro à cabeça e, ao deparar com o judeu, estaca. Depois, meio a medo, ela passa por ele, dirige-se ao poço. Amarra as asas do cântaro à corda, e colhe a água. Coloca a bilha sobre o poial e quando vai levantá-la ao ombro, ouve:

- "Dá-me de beber."

A samaritana estranha o pedido. Será com ela mesma? Um judeu pedindo favor? Judeus e samaritanos olhavam-se com despeito, julgando-se superiores os primeiros e considerando os segundos impuros, eis que se haviam mesclado aos imigrantes pagãos, que tinham dominado a Samaria.

Um outro detalhe ainda a surpreende. Ela é uma mulher, a quem o homem não dirije a palavra em público, mesmo seja sua esposa, mãe ou irmã.

Um tanto irônica, extravasa a própria amargura e lhe diz:

- "Como sendo tu judeu, me pedes de beber a mim, que sou mulher samaritana?"

A resposta do rabi judeu não revela aspereza, nem revide:

- "Se tu conhecesses o dom de Deus, e quem é o que te diz: dá-me de beber, tu lhe pedirias, e ele te daria água viva."

"Como alguém que nem tem com que tirar a água do poço, poderia ofertar água?" - é o que ela indaga, para ouvir a respeito da água vivia com que Jesus vinha dessedentar a humanidade. Uma água que dessedenta eternamente.

Terá pensado a mulher na bênção de não mais necessitar vir à fonte, duas vezes ao dia? Terá percebido nas palavras do rabi algo que lhe pudesse saciar a sede interior? Ela bebera os prazeres sensuais em grande abundância, nas suas águas salobras, e não sentira diminuído o ardor que a fizera mendiga de muitos homens.

- "Dá-me dessa água, Senhor." - Agora ela se torna pedinte.

O Amigo Celeste lhe diz que vá chamar seu marido e retorne. Ela se perturba. Toda sua alma ferida, humilhada, receia. As lágrimas escorrem pela face. Quanto desejara, tantas vezes, ser considerada uma mulher correta, e, conseqüentemente, respeitada. Mas jamais o fora.

- "Não tenho marido..." - balbucia.

Jesus sabe, conhece sua intimidade e ao confirmar-lhe que ela falava a verdade, porque já tivera cinco maridos e o homem com quem convivia não era seu marido, conquista em definitivo a mulher.

Ela o reconhece como profeta, pois somente um Profeta poderia saber tais coisas, devassar-lhe o interior.

A mente em desalinho, ela deseja aproveitar cada minuto, e pergunta, interroga. Sua voz se torna doce. A conversação se alonga, em torno das considerações do correto local de adorar a Deus.

Jerusalém, pregavam os judeus. Monte Garizim, mesmo depois do templo destruído, falavam os samaritanos.

A admirável paciência de Jesus lhe diz:

- "Acredita-me, senhora; virá a hora em que adorareis ao Pai, não já neste monte, nem em Jerusalém, mas em espírito e em verdade; pois Deus é espírito e os que o adoram, em espírito e verdade, é que devem adorá-lo.

As palavras são sublimes: um cálice de água viva. Rompem-se velhos conceitos e separativismos. Deus não pertence a um povo, a uma casta. É imanente em tudo e todos. Transcendente.

Talvez por não estar habituada a questões filosóficas mais profundas, não tivesse entendido bem o ensino. Ou talvez se desejasse assegurar a respeito da identidade do peregrino. Fosse porque fosse, ela ousa dizer:

- "Bem sei que, quando vier o Messias, nos há de revelar todas as coisas..."

E Jesus, de modo direto, se identifica, antes de o fazer, de forma ostensiva, a outro qualquer:

- "Eu o sou; eu, que falo contigo."

Aquela informação despertou na mulher uma explosão de alegria. Algo dentro dela se rompeu. Ela abandonou o cântaro à borda do poço e se pôs a correr na direção de Sicar, entrando na cidade a gritar:

- "Vinde e vede um homem que me disse tudo quanto tenho feito! Porventura não é este o Cristo?"

A população espia pelas janelas, sai às portas.

- "Estará louca?" Questionam uns.

Outros pedem-lhe explicações. O povo se vai aglomerando. Logo, são centenas de habitantes da cidade que a rodeiam.

O falatório cresce. As discussões se ampliam. O melhor é irem todos ver o tal estrangeiro que falou com Fotina. Quase aos atropelos, descem até o poço de Jacó.

Os discípulos, que chegaram com as compras, oferecem alimento ao Mestre, que agradece, mas não se serve. Refere-se a um alimento que eles desconhecem e que a sua comida é fazer a vontade dAquele que o enviou.

Os samaritanos o rodeiam e o ouvem. Ele fala da semeadura e da colheita àqueles pastores, agricultores, pescadores. Tão encantados ficaram que rogaram que Ele permanecesse mais um tempo. Jesus se deixou ficar por dois dias em Sicar, ensinando e curando.

Ao se despedir, no terceiro dia, havia lágrimas nos olhos de toda aquela gente desprezada e humilhada. Nunca ninguém lhes dera tanto.

Todos os que haviam bebido da Sua sabedoria, que haviam se consolado com Seus ensinos, que haviam vislumbrando a chance da renovação, ou se curado de mazelas, voltaram-se para Fotina, e lhe disseram:

- "Mulher, já não é pelo que disseste que nós cremos: porque nós mesmos O temos ouvido e sabemos que Ele é verdadeiramente o Cristo, o Salvador do Mundo..."

E "A Iluminadora" nunca mais foi a mesma, após o sublime encontro, na tarde quente, ao sol do meio-dia.

Bibliografia:

01.FRANCO, Divaldo Pereira. A mulher da Samaria. In:___. As primícias do reino. Pelo espírito Amélia Rodrigues. Rio de Janeiro: SABEDORIA, 1967.

02.RENAN, Ernest. Relações de Jesus com os pagãos e os samaritanos. In:___. Vida de Jesus. São Paulo: Martin Claret, 1995. cap. 14.

03.ROHDEN, Huberto. Água viva. In:___. Jesus Nazareno. 6. ed. São Paulo: União Cultural. v. 1, cap. 28.

04.______. Jesus e as mulheres. Op. cit. Cap. 54.

05.SALGADO, Plínio. Jesus e a samaritana. In:___. Vida de Jesus. 21. ed. São Paulo: Voz do Oeste, 1978. cap. 24.

06.TEIXEIRA, J. Raul. O Messias. In:___. Quem é o Cristo. Pelo espírito Camilo. Niterói: Fráter, 1997. cap. 14.

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