sábado, 24 de abril de 2010

Luís da Costa Porto Carreiro Neto

Às 10 horas da manhã de 21 de julho de 1964, desencarnou repentinamente, vítima de espasmo cerebral, o nosso culto e operoso irmão Professor Dr. Luís da Costa Porto Carreiro Neto.

Os leitores de Reformador, conhecem o médium psicógrafo que sempre aparece em nossas colunas como mediador de poetas do Grande invisível; muitos lhe terão lido o interessante livro Ciência Divina, do Espírito de Jaime Braga. Não poucos hão de ter notado que Porto Carreiro Neto foi continuador da obra iniciada por Francisco Valdomiro Lorenz, pois que prosseguiu em Reformador, a seção de versos doutrinários recebidos diretamente em Esperanto, seção essa criada pelos nossos Maiores da Espiritualidade, em julho de 1943, pela mão do médium Francisco Valdomiro Lorenz.

Pôrto Carreiro Neto nasceu no Recife, Pernambuco, aos 7 de janeiro de 1895.

Foi criado por uma tia e madrinha, pois que sua genitora faleceu, deixando-o em tenra infância.

Casou-se em 7 de janeiro de 1920, data de seu vigésimo quinto aniversário, enviuvando a 13 de junho de 1958, sem ter deixado descendentes.

Era filho do Professor Carlos Pôrto Carreiro, grande filósofo, lingüista e poeta, a quem devemos excelente gramática portuguesa e obras de arte imortais, como a sua tradução da obra prima de Edmond Rostand, CYRANO DE BERGERAC, tradução em lindos versos, reputados pela crítica como mais belos que os originais. Em seu tempo, a língua francesa tinha grande internacionalidade e para ela Carlos Pôrto Carreiro traduzia primores da literatura brasileira, como vemos desta tradução de Mal Secreto, do nosso grande vate Raimundo Correia:


Mal Secreto

Si la haine bave et la douleur tenace

Qui nous prend, Qui détruit chaque rêve moqueur,

Si tout chagrin poignant, Qui ronge plus d¢un coeur,

Du fond de notre moi montait à la surface;

Si, rien qu¢en enlevant le masque d¢une face,

On y voyait l¢esprit qui pleure son malheur,

Combien de gens dont nous envions le bonheur

Nous faraient-ils plutôt pitié sous leur grimace!

Et combien il en est Qui cachent dans leur sein

Helas! Un ennemi secret, affreux, malsain,

Comme un chancreux dérobe au jour as plaie immonde!

Que de drames hagards sous des regards joyeux!

Que de gens, ici-bas, ne sont peut-être heureux

qu¢en ce qu¢ils font semblant de l¢être aux yeux du monde!

Juin 1926, tradução de Carlos Porto Carreiro.


Aqui nossa modesta homenagem ao espírito superior que, se houvesse nascido uns decênios mais tarde, teria sido, como o filho, um cultor do Esperanto.

Carlos porto Carreiro era proprietário e diretor de um ginásio em sua cidade natal, Recife. Luís começou a lecionar no colégio do pai aos catorze anos de idade. Mais tarde a família se transferiu para o Rio de Janeiro, onde Luís fez com brilhantismo diversos cursos na Escola nacional de Engenharia, a saber: de engenheiro civil, de engenheiro mecânico e eletricista, de engenheiro industrial, tornando-se a partir de 1925, livre docente, por concurso, da cadeira de Química Industrial da mesma Escola.

Concorrendo à vaga para professor catedrático de Química Inorgânica e Análise Qualitativa, na Escola nacional de Química, saiu vencedor, sendo nomeado em 1933, e ficando em disponibilidade na cadeira que até então ocupava na Escola Nacional de Engenharia. Posteriormente, foi empossado nas funções de Diretor da Escola nacional de Química, dando mostras de grande atividade administrativa e elevado senso de responsabilidade.

Somente há poucos anos é que o Professor porto Carreiro se aposentou, deixando naquela Escola da Universidade do Brasil uma soma inestimável de serviços prestados à coletividade estudantil.

Como professor e examinador, seja nos cursos universitários, seja nos cursos elementares ou superiores de Esperanto, era sempre muito rigoroso para com os alunos, exigindo o máximo de aproveitamento, como era rigoroso para consigo mesmo.

Profundo conhecedor das ciências físicas, químicas e matemáticas, por vezes se insurgia calorosamente contra erros que os livros de ensino deixavam escapar, chegando mesmo a escrever aos seus autores, delicadamente solicitando destes as necessárias corrigendas para as futuras edições.

Como esperantista dos mais cultos do mundo, foi durante decênios membro da lingva Kimitato e, depois da Akademio de Esperanto. Secretário geral da Liga Brasileira de Esperanto, vice presidente do Brazila Klubo Esperanto, vice chefe delegado da Universala Esperanto Asocio, seu nome tornou-se internacional, sendo incluído, com uma bibliografia, na conhecida enciclopedio de Esperanto, publicada em Budapeste, 1933 1934.

Poeta, prosador e tradutor, preparou livros realmente magistrais em e sobre Esperanto. Traduziu para essa língua dois romances brasileiros: A Viuvinha de José de Alencar, que foi publicado, e Bugrinha de Afrânio Peixoto, inédito.

Juntamente com os Drs. A. Couto Fernandes e Carlos Domingues, elaborou o Dicionário Português Esperanto, dado a lume em 1936. Nesses últimos anos, o nosso caro confrade vinha exaustivamente trabalhando na organização de um novo e grande Dicionário Esperanto Português, sempre ampliado a cada dia. Esta obra de gigante, que ele deixou terminada está inédita. Editá-la constitui uma necessidade e um dever.

Em conjunto com o professor Ismael Gomes Braga, a este ligado por laços idealísticos profundos, refundiu totalmente, ampliando-a bastante, a obra Esperanto sem Mestre, de autoria de Francisco Valdomiro Lorenz, obra que já conta com seis edições impressas pelo Departamento Editorial da FEB.

A pureza, a fluência e a correção do seu Esperanto granjearam-lhe justos e merecidos elogios das entidades, dos órgãos de imprensa e dos homens mais representativos do mundo esperantista, comparando-se-lhe muitas vezes o estilo com o de Zamenhof. Colaborou em vários jornais e revistas esperantistas do Brasil e do estrangeiro, quer em prosa, quer em verso, sempre admirado pela sua cultura e saber.

Conhecia diversas outras línguas, entre elas o alemão, o Inglês, o francês, o castelhano, o grego e o latim. Conferiu-lhe o presidente do Instituto Brasileiro de Cultura Alemã o diploma de sócio efetivo, e a Sociedade Brasileira de Geografia recebeu-o como sócio honorário.

Apesar de sua vida de intenso trabalho e profícuas realizações, o Professor Porto Carreiro Neto ainda encontrou tempo para aprender e aprofundar em outra ciência: o xadrez, chegando a ser campeão internacional, com seu nome estampado na imprensa de além fronteiras. É, todavia, no âmbito esperantista que sua existência se imortalizou, cobrindo-se de glórias imorredouras.

Pelo Departamento Editorial da FEB, publicou as seguintes traduções, todas enaltecidas pela crítica daqui e de além mar: La libro de la Spiritoj, La Libro de la mediumoj, em colaboração com I.G. B., Antau du mil jaro. . ., Em Ombro Kaj em Lumo, Nia Hejmo, Ago Kaj Reago. Deixou traduzido, para ser futuramente publicado pela FEB, e o será nos primeiros meses de 1965, a grandiosa obra mediúnica Paulo e Estevam, e estava traduzindo Qu¢est-ce que le Spiritisme, de Allan Kardec, quando Átropos lhe cortou o fio da existência terrena. Não chegou ao meio do volume.

Como espírita, foi membro vitalício da FEB e membro do conselho Federativo Nacional, representando Pernambuco. Médium de incorporação e psicógrafo, recebeu, como já mencionamos acima, um livro do Espírito de Jaime Braga, com o título Ciência Divina, muitos sonetos em português e poemetos em Esperanto.

Espírito de alto nível moral, de vasta cultura e muita capacidade de trabalho, não se dobrava ao cansaço, nem ao desânimo.

Sua missão como esperantista e médium se achava sempre harmoniosamente enquadrada no programa de trabalho da FEB. Foi um trabalhador de Jesus na preparação do Brasil para sua anunciada missão histórica. Todos os nossos livros em e sobre Esperanto foram cuidadosamente revistos por ele e entregues a FEB para futuras edições.

Não dizemos que perdemos um grande trabalhador, porque ele ficará nos livros, ensinando as futuras gerações, e certamente saberá inspirar sucessores para seus ideais na superfície da terra. Depois de escrevermos isto, eis que a 23 do mês de julho, dois dias após a sua desencarnação, como que a confirmar nossas esperanças, se manifesta no Grupo Ismael, através do médium Giffoni, o nosso Porto Carreiro Neto, a transmitir-nos mensagem alentadora, da qual extraímos estas exortações:

“Estamos de pé, com os olhos voltados para a nossa tarefa. Não a interrompemos, e vocês também não. Eu, por um pouco, dizem-me estarei ausente, mas retornarei. Enquanto isto, os amigos continuarão a obra, porque não é nossa, é do Cristo, é da Humanidade”.

Congratulamo-nos com o bom servidor por haver aproveitado bem sua recente reencarnação e suplicamos do Senhor bênçãos de luz para seu Espírito, que, liberto das sombras da matéria, rapidamente se amoldou a nova situação, vindo nos afirmar, conforme suas próprias palavras, na comunicação mediúnica acima referida, que tudo continua em laboro construtivo.

Anuário Espírita - 1965

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