sábado, 24 de abril de 2010

Ali Halfeld

Nasceu em 18 de março de 1900, em Água Limpa (hoje Coronel Pacheco), Município de Juiz de Fora, Minas Gerais, onde iniciou o Curso Primário com o Prof.

Paulo Estelita. Em 1907 mudou-se para a cidade de Juiz de Fora, em companhia de seus pais, senhor Pedro Halfeld e D. Hortênsia de Pinho Halfeld, ali terminando o referido curso.

No ano de 1910 sua família o levou para Caxambu, mas, dentro de poucos meses, regressou ele para Juiz de Fora, a fim de continuar os estudos, passando, então, a residir com seu padrinho, o Sr. Cláudio Fernandes. Seu Curso Ginasial foi feito até 1915 no antigo Ginásio Santa Cruz, dos saudosos professores os irmãos Alípio e Oscar Peres.



Machado de Assis, o sempre lembrado membro da Academia Brasileira de Letras, o literato que se consagrou como romancista, crítico, poeta e teatrólogo, escreveu:

\"O tempo é um tecido invisível em que se pode bordar tudo: uma flor, um pássaro, uma dama, um castelo. Também se pode bordar nada\".

A história da humanidade está referta de personalidades que no grande tecido invisível do tempo bordaram paisagens tanto de resplandecente luz, quanto de quadros marcados pela sombra de angustiante negatividade.

Quantos não terão lamentado o precioso tempo perdido. Ali Halfeld soube valorizar seu tempo, dispondo de todo e qualquer minuto para conjugar o verbo servir.

Possivelmente estivesse sintonizado no dia-a-dia de sua existência com o pensamento de Gabriela Mistral, Prêmio Nobel de Literatura, que um dia escreveu:

\"Toda a Natureza é um anelo de serviço. Serve a nuvem, serve o vento, serve o sulco. Onde houver uma árvore para plantar, planta-a tu; ... onde houver tarefa que todos recusem, aceita-a tu. Sê quem tira a pedra do caminho, o ódio dos corações e as dificuldades e as dificuldades dos problemas\".

Ali Halfeld serviu sempre. Serviu amorosa e desinteressadamente, convicto de que o melhor travesseiro para suas noites seria a consciência do dever cumprido durante o dia. \"Nunca foi visto em acontecimentos sociais, e sua figura só se fazia presente entre as as luzes cansadas de um casebre e as lamparinas de barracos de gente miserável(1).

Quem conviveu intimamente com Ali Halfeld terá percebido sua inclinação para o problema do menor abandonado. Em entrevista concedida ao Diário Mercantil, de 12 de outubro de 1947, durante uma Semana da Criança, destacou de forma incisiva a necessidade de olharmos mais carinhosamente para fora de nossos lares, em nos referindo à criança necessitada. Escreveu ele:

\"Estamos na Semana da Criança. Da criança que, pela sua inocência, sua simplicidade e sobretudo pela sua confiança em nós adultos, tanto nos encanta como nos preocupa. Aos pais é sempre motivo de preocupação o futuro de cada filho. Mas justo será que estendamos mais além esse interesse pela infância...\".

Questionado sobre se cabe ao Estado a solução deste grave problema, respondeu o entrevistado:

 \"De maneira nenhuma. O Estado por si só não o resolve por dois motivos: primeiro, porque seu orçamento não lhe permite arcar com o ônus, sendo sempre oportuno lembrar que a manutenção de qualquer servidor público custa sempre mais.

O segundo ponto está na dificuldade de encontrar pessoal indicado para o desempenho das árduas responsabilidades de lidar com menores. Pode acontecer, como tem acontecido, que o diretor de tal patronato não preencha os requisitos necessários a uma boa gestão, porque ele exerce o cargo como dever funcional e não como idealista.


Dá seu cérebro mas não dá o seu coração. Temos para conosco que o melhor meio será o Estado estimular as organizações particulares idôneas, porque o grupo de pessoas que se propõem fundar um estabelecimento para crianças, fá-lo por um imperativo de seu coração\".


Humilde e bondoso, trabalhou Ali Halfeld durantre toda a sua existência para o semelhante necessitado. A respeito de seu abnegado labor em benefício das crianças, contou um dia o confrade Cecílio Sampaio, pessoa assaz conhecida em Juiz de Fora, na década de 50, que: \" era comum ver o presidente do Instituto Jesus, portando um grosso caderno o qual apresentava a todas as pessoas de suas relações para que fossem assinadas as doações para construção dessa obra de amparo ao menor abandonado e que hoje ergue-se no bairro de Lourdes ( Juiz de Fora ). Era o \'livro de ouro\'.

Certa feita estava Sampaio conversando em uma roda de amigos, quando Ali aproximou-se integrando-se na conversa. Trazia nas mãos o famoso livro. Logo que pôde, conseguiu encaminhar o assunto para os problemas da infância desvalida e, como estivesse presente um rico fazendeiro, achou por bem convidá-lo a assinar o livro, doando alguma coisa em benefício das crianças. Esclareceu na oportunidade que era uma obra espírita destinada a amparar a infância necessitada.

Para surpresa geral o fazendeiro exaltou-se sobremodo, vociferou contra os espíritas e suas obras. Afirmou que o problema era tão apenas do governo. Ali Halfeld colocou o livro em baixo do braço, inclinou a cabeça e pacientemente ouviu todas as acusações, por sinal pesadas e feitas em contundente tom. Esgotado o repertório, o fazendeiro calou-se. Ali Halfeld com ar muito calmo, tomou a palavra:


- Bem. Tudo isto que você falou, meu amigo, foi a minha cota que eu aceito e agradeço de coração, pois é o que mereço.


E abrindo \'o Livro de Ouro\' continuou:


- Mas, e a cota para as criancinhas pobres do Instituto Jesus? Será que você pode assinar aqui?


Ante os olhos atônitos de todos os presentes, o fazendeiro desarmado com essa demonstração de humildade, tomou o livro, tirou a caneta e assinou polpuda quantia\".


Sinônimo de amor ao próximo, tinha predileção por uma página literária que traduzia esse mesmo amor. Era um soneto do conhecido poeta Djalma de Andrade, com o título: Ato de Caridade (texto sombreado).


Sobre seu amor aos pássaros, eis o que se passou certa vez na estância hidro-mineral de Caxambu: À saida do Parque das Águas foi Ali solicitado por um menor a comprar algumas gaiolas com pássaros os mais variados: eram coleirinhos, curiós, curupiras, cardeais, bicos de lacre e outras espécies. Feita a transação, de posse de todas as gaiolas, Ali abriu as portas para que os pássaros ganhassem a liberdade. Muito espantado o garoto perguntou incontinenti:


- Mas o senhor não gosta de passarinhos?


A resposta do comprador foi também imediata:


- Gosto sim! Gosto tanto que não desejo ver nenhum deles preso!


Ali Halfeld foi também um amigo do setor artístico, tendo ocupado a presidência da Orquestra Filarmônica de Juiz de Fora.


Tendo abraçado o Espiritismo em decorrência de artigos espíritas que eram escritos no Correio da Manhã(2) por estudiosos da Doutrina, Ali Halfeld foi logo despertado pelo desejo de trabalhar em benefício dos semelhantes.


Auxiliou com entusiasmo e equilíbrio todas as entidades de assistência social que lhe solicitavam ajuda.

No setor espírita, devemos mencionar a Fundação João de Freitas, obra de amparo à velhice e à viuvez, que construiu, e para a qual foi eleito presidente em 2 de fevereiro de 1934, e o Instituto Jesus, destinado ao menor abandonado, que, fundado em 19 de março de 1944, foi inaugurado em 18 de setembro de 1955. Eleito presidente na própria assembléia que fundara o Instituto Jesus, Ali Halfeld permaneceu em sua direção até 26 de março de 1960, quando, por motivo de doença, teve que afastar-se da direção da Entidade.


Grande entusiasta da imprensa espírita, Ali Halfeld colaborou com muito amor junto à Associação de Publicidade Espírita, mantenedora, durante muitos anos, da revista O Médium(3). Eleito vice-presidente, em 9 de agosto de 1937, deu a ela todo o seu esforço.


Ainda no setor do Espiritismo, entre outras atividades, devemos mencionar o estudo que, durante anos a fio, fez da obra O Livro dos Espíritos, na tribuna da Casa Espírita(4), assim como o trabalho que escreveu: \"O Problema do Menor\", cuja publicação foi feita pelo jornal Diário Mercantil, em apresentações semanais.


Desencarnou em 13 de setembro de 1967, após ter \"combatido o bom combate\"(5).






Notas:

1- Fontes consultadas: Jornalista Wilson Cid - Grandes Espíritas do Brasil - FEB; http://www.espiritismogi.com.br/biografias/ali.htm;

Site da Federação Espírita do Estado do Paraná; Kléber Halfeld - Juiz de Fora.

2- Jornal carioca diário e matutino fundado em 15 de junho de 1901, por Edmundo Bittencourt e extinto em 8 de julho de 1974. Foi durante grande parte de sua existência um dos principais órgãos da imprensa brasileira, tendo-se sempre destacado como um \"jornal de opinião\".

3- Revista espírita com 73 anos de circulação, fundada em 30-07-1932, publicada pela Aliança Municipal Espírita de Juiz de Fora.

4 - Tradicional grupo espírita de Juiz de Fora.

5 - Alusão ao pensamento de Paulo, o Apóstolo, em 2-Timóteo 4:7.

Fonte: \"O Espírita Mineiro\" - SETEMBRO/OUTUBRO - 2005

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