sábado, 24 de abril de 2010

Camilo Castelo Branco

A Doutrina Espírita presta-se aos mais variados enfoques de estudo, especialmente os que tangem às Ciências Humanas.

O momento do seu nascimento, o século XIX, é um campo fecundíssimo para tal: é a primeira vez em que o planeta, globalmente, se comunica, e que, graças a essa comunicação, todo o conhecimento humano é reavaliado, refundido e reestruturado.

Antigas ciências adquirem abordagens mais profundas e sistematizadas, novas ciências se lhes juntam. Por toda a parte se estuda, pesquisa, desenvolve, produz. Assim é com os trabalhos da antiga História, da nascente Psicologia, do prometido Consolador.

A obra do prof. Rivail reflete o melhor conhecimento seu século, quer na sistemática de trabalho quer, principalmente, no método de pesquisa a que recorre, na aliança da fé, da ciência e da filosofia, como Darwin, Freud e Marx o fizeram nas expressões isoladas em que se destacaram.

Camilo Castelo Branco é um dos maiores nomes da literatura portuguesa no século XIX. Senhor de notável erudição - referência obrigatória para o estudioso da língua -, polemista notável, sua obra abrange campos tão variados como o jornalismo, o romance, a crítica, a história e a poesia.

No plano pessoal, entretanto, toda a existência de Camilo afigura-se como um desenrolar de profundos dramas: um observador não-espírita indagaria o por quê de tanta dor... O próprio Camilo não o sabe, mas se questiona, sonha, vive e trabalha, amadurecendo o fruto dessa dor em uma vasta obra.

Cínico às vezes, outras variando da absoluta incredulidade até à credulidade mais pueril, seus temas são os da busca do amor, da felicidade, ou a demonstração da sua impossibilidade. De seus escritos provêm a sua subsistência e de seus familiares, e as dificuldades forçam-no a escrever, escrever sempre mais...

Para os espíritas, o caso de Camilo suicida é mais eloqüente do que qualquer dissertação teórica, referência obrigatória para o estudo do tema, através da mediunidade de Yvone Pereira. Entretanto, ao iniciar este trabalho, espírita, historiador e admirador da prosa camiliana, a premissa era mais ambiciosa, mais vivaz: ordenar os fatos conhecidos da biografia "post-mortem" de Camilo, se possível confrontando-os com fatos conhecidos de sua vida no século XIX; comparar os diferentes episódios dessa "biografia", apresentados por fontes mediúnicas independentes, distantes entre si quer no tempo, quer no espaço; registrar coincidências ou discrepâncias significativas entre as fontes estudadas;identificar possíveis pontos de contato entre as fontes em Portugal e no Brasil, bem como as características particulares dos respectivos trabalhos; reconhecer o papel da FEB - Federação Espírita Brasileira, na preservação e unificação das obras, bem como os mecanismos legais para fazê-lo.

Por trabalharmos com um personagem conhecido e relativamente recente em termos históricos, é fácil verificarmos os fatos da cronologia de sua vida terrena: a bibliografia camiliana é imensa, tanto em Portugal quanto no Brasil.

Ao mesmo tempo, pela permissão do Alto, as informações que se filtram em suas obras psicografadas, permitem uma reconstrução bastante precisa de sua existência no Além.

Nessa espécie de quebra-cabeças de eventos, médiuns e obras, ao estudioso cabe o ajuste e a montagem das peças que estão separadas por fontes distintas entre si, no espaço e no tempo, recompensado pela beleza do mosaico que desvenda ante si.

Para uma referência mais ágil às principais obras a que recorremos, utilizaremos as seguintes siglas: Memórias de um Suicida (MS), Nas Telas do Infinito (TI), e Do País da Luz , vols. I a IV (PL I a IV). Ao final do trabalho, um comentário bibliográfico referindo as edições consultadas, bem como as notas pertinentes.

O médium Fernando de Lacerda

CAMILO, POR CAMILO

21/mai/1890 - Após tomar conhecimento pelo médico de que sua cegueira era irreversível, Camilo dispara um tiro de revólver no ouvido direito. São 15:15h na sua quinta de São Miguel de Seide (N de Portugal): às 17:00h Camilo desencarna.

jan/1891 - Após meses vagueando sem destino em torno dos próprios restos mortais, Camilo é detido no Vale dos Suicidas (MS pg. 15), abrigo de réprobos oriundos de Portugal e suas colônias africanas, Espanha, e Brasil (MS pg. 18). É a data com que se inicia o Memórias de um Suicida. 20/set/1895 - Desenlace de Ana Plácido, segunda esposa de Camilo, a quem dá três filhos. Apesar de amá-la extremosamente em vida, inclusive se envolvendo em rumoroso processo que culmina em sua prisão na Cadeia da Relação no Porto (casada, Ana Plácido foge do marido para viver com Camilo), na biografia "post-mortem" do escritor não há nenhuma referência direta a esta com quem passou a maior e mais fecunda parte de sua vida literária. nov/1903 - Camilo se encontra há pouco tempo no Hospital Maria de Nazaré, da Legião dos Servos de Maria. A data é do episódio da visita de Jerônimo a Portugal (MS pg. 102). O ano de 1903 parece ser confirmado à pg. 193 (MS): "dentre tantos que convosco ingressaram há três anos, (...)", com relação a acontecimentos descritos como tendo ocorrido em 1906. 1904 - Data provável da 1ª caravana com Camilo à crosta terrestre (vide 1906): trabalhos de conscientização de suicidas no interior do Brasil (MS pg. 149 - a referência é feita ao primeiro decênio deste século). 1906 - cerca de dois anos após a primeira caravana (MS pg. 175), o médium português Fernando de Lacerda, por iniciativa própria, já havia entrado em contato com Camilo.


As primeiras comunicações deste pelo médium, registram-se em 1906 (1906-02=1904, data provável da caravana acima), quando Camilo começa a ditar as cartas que originam a obra Do País da Luz (MS pg. 176). É um ano de franca atividade para o escritor e seus companheiros de enfermaria: voltam à crosta terrestre - a Portugal - em uma segunda caravana com o fim de obter alta do Hospital Maria de Nazaré (MS pg. 373), e prosseguem as comunicações de Do País da Luz, que acendem viva polêmica (MS pg. 377 e segs.). Sem sucesso em Portugal, Camilo e seus companheiros transferem-se para o Brasil (MS pg. 385) em busca de campo mais fecundo de trabalho, sem abandonar as comunicações de Do País da Luz (MS pg. 386). Nas próprias palavras de Camilo: "voltamos à Terra muitas vezes, permanecendo em suas sociedades, com pequenos intervalos desde os primórdios de 1906." (MS pg. 481). 28/out/1906 - 1ª carta de Camilo por intermédio de Fernando de Lacerda a Silva Pinto, conhecido de Camilo (PL I pg. 66). 18/nov/1906 - 2ª carta a Silva Pinto, pelo mesmo médium (PL I pg. 85). 20/nov/1906 - 3ª comunicação de Camilo (PL I pg. 95) 20/nov/1906 - 4ª comunicação de Camilo (PL I pg. 99). 20/abr/1906 - 5ª comunicação - Carta a Silva Pinto (PL I pg. 109). 05/dez/1906 - 6ª comunicação, acerca de Silva Pinto (PL I pg. 143). 15/jan/1908 - prólogo de Souza Couto ao Vol. I de Do País da Luz (pg. 11). 29/abr/1908 - dedicatória de Fernando de Lacerda ao Vol. II de Do País da Luz (pg. 7). 06/mai/1908 - prólogo de Souza Couto ao Vol. II de Do País da Luz (pg. 11). 26/mai/1908 - prefácio de Fernando de Lacerda ao Vol. II de Do País da Luz5 (pg. 23). 1910 - após dez anos de internação (MS pg. 448) Camilo recebe alta da instituição hospitalar, ingressando na Universidade da mesma instituição.

Nos primeiros tempos da Universidade, reencontra sua mãe, seu pai, e sua esposa falecida. Ele se refere a esse enlace como "matrimônio venturoso" (MS pg. 487), pelo que presumimos se trate de Ana Plácido, uma vez que a primeira esposa de Camilo, Maria do Adro, morreu de tuberculose, com pouco tempo de casados. 01/abr/1911 - carta de Silva Pinto na abertura do Vol. III de Do País da Luz (PL III pg. 11). mai/1911 - prólogo de Fernando de Lacerda à 2a. edição do vol. I de Do País da Luz (pg. 53). A 1a. edição havia-se esgotado em poucos meses (1908?). A 1a. edição do Vol. II já havia sido lançada em 1908. Esta 2a. edição do Vol. I sai com a reedição do Vol. II, e com a 1a. edição do Vol. III (PL I pg. 54), que também é de 1911. jun/1911 - prólogo de Fernando de Lacerda ao Vol. III de Do País da Luz6 (pg. 13). 25/jul/1911 - Fernando de Lacerda chega ao Rio de Janeiro, no Brasil7. nov/1911 - desencarnação de Silva Pinto (PL IV pg. 37). 1912 - por volta desta data (MS pg. 486), dois anos após o reencontro com seus familiares, Camilo toma contato com as suas vivências passadas para fins didáticos (MS pg. 490, 493, 499). 07/ago/1918 - desencarnação, no Brasil, de Fernando de Lacerda. 1919 - copyright da FEB de Do País da Luz. 1919 - data provável do lançamento do Vol. IV de Do País da Luz8. 1926 - Camilo se comunica no Brasil, em Lavras/MG, pela jovem médium Yvone A. Pereira, que trabalha com atendimento a suicidas. É o inicio de um trabalho que será compilado 20 anos mais tarde: o Memórias de um Suicida (MS pg. 7). 1930 - graduado na Universidade da instituição dos Servos de Maria, Camilo passa a servir na enfermaria do Hospital, em lugar de Joel, seu antigo enfermeiro, que reencarnara (MS pg. 546). mai/1930 - Yvone A. Pereira inicia a novela O Tesouro do Castelo (TI pg. 61), narrativa assinada por Camilo (TI pg. 66). 1936 - Camilo está escrevendo após cerca de 30 anos, referindo-se a acontecimentos ocorridos cerca de três anos após seu ingresso na instituição-hospital (MS pg. 346). Cruzando essa informação com a datação de 1903 como seu ingresso no Hospital, temos o ano de 1936 como data aproximada de inicio da criação de Memórias de um Suicida10. 1942 - "faz precisamente cinqüenta e dois anos que habito o mundo astral" (MS pg. 544): assim Camilo inicia o final de suas memórias... 1945 - data provável da reencarnação de Camilo. Segundo a diretriz-base traçada para essa nova existência, trabalharia como médium curador (MS pg. 546), devendo cegar aos 40 anos de idade (MS pg. 565) e desencarnar aos 60 anos (MS pg. 566). 1946 - Yvone A. Pereira reinicia os trabalhos de psicografia do Memórias de um Suicida .

Na introdução da obra, ela nos informa que teve que esperar oito anos para prosseguir essa tarefa (MS pg. 10), já que impedida temporariamente, ao fim desse impedimento, Camilo só a procurou para lhe participar a sua (dele) próxima reencarnação (data do Copyright da FEB e do prefacio da 1ªedição = 1954 - 1 ano despendido no prefácio cf. pg. 10 = 1953 - 08 = 1945 data provável da reencarnação de Camilo). 18/mai/1954 - introdução de Yvone A. Pereira no Memórias de um Suicida (pg. 12). 1954 - copyright da FEB da obra Memórias de um Suicida11. 1955 - copyright da FEB de Nas Telas do Infinito. 1956 - 1ª edição do Memórias de um Suicida. 1985 - aos 40 anos Camilo reencarnado, conforme a diretriz-base, deveria novamente arcar com a provação da cegueira (MS pg. 565). 2006/2007 - aos 60 anos, Camilo reencarnado, por aquela diretriz, deverá desencarnar (MS. pg. 566).

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